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Desde os tempos mais remotos, o Homem
procurou através do rito participar na acção criadora dos deuses,
acompanhando o ciclo da vida e da própria natureza com celebrações que
nos fazem acreditar que os mesmos possuem alguma dose de magia
indispensável a todo o contínuo processo de nascimento, vida, morte e
retorno que constitui o eterno ciclo da própria existência.
Eis porque, desde o começo do inverno até à
sagração da primavera têm tradicionalmente lugar um conjunto de rituais
que visam influenciar o ciclo da vida e dos vegetais de modo a assegurar
o renascimento da própria natureza, os quais vão desde o culto aos
mortos que ocorre no início de Novembro até à serração da velha,
passando pelas festas solsticiais e do entrudo ou carnaval. Com a
chegada do cristianismo, estas celebrações pagãs foram adquirindo formas
mais ou menos cristianizadas, mas revelando frequentemente
características que não se coadunam por completo com a fé cristã.
Entre
os antigos ritos pagãos que nalgumas localidades assumiram uma forma
cristianizada salienta-se a "serração da velha" destinada a celebrar o
renascimento da primavera, a qual foi substituída pela "queima do judas",
iniciativa que adquire frequentemente mais notoriedade em Ponte de Lima
e também no concelho de Palmela, na margem sul do rio Tejo. Enquanto a
serração da velha tinha tradicionalmente lugar na quarta-feira da
terceira semana da quaresma, a queima do judas realiza-se
invariavelmente no sábado imediatamente anterior ao domingo de páscoa,
parecendo evocar a traição de Judas Escariotes a Jesus Cristo como a
Bíblia menciona.
De resto, ambas as celebrações seguem no
essencial o mesmo rumo que vai da leitura de um testamento à encenação
da condenação cuja forma de execução, apesar do seu aspecto lúdico, não
exige o rigor da autenticidade, pois em geral o boneco que o representa
é armadilhado com fogo pirotécnico para poder rebentar e por fim
queimar, quando a narração bíblica nos decreve um enforcamento. Em ambas
as situações, na serração da velha e na queima do judas, o boneco a ser
executado também faz a representação de alguém a quem se procura visar
com a crítica social, não passando actualmente em muitos casos de uma
mera brincadeira inofensiva sem a carga que noutras épocas a mesma
representava.
Assim, de uma representação simbólica da
separação do ano velho em relação ao que acabava de nascer por meio de
um acto de serração, estas festividades adquiriram ainda um carácter
social que através da acção crítica se procurava exorcizar os males do
ano velho aqui simbolizado na figura de uma "velha", aliás da mesma
forma que se procedeu durante todo o inverno e sobretudo durante o
período carnavelesco onde toda a ordem social foi virada do avesso de
modo a afastar os maus espíritos que povoam esta época do ano, associada
à morte dos vegetais. E como a mentalidade antiga liga a morte à vida em
vez de a separar, a natureza renasce sempre a partir da morte tal como
ao inverno sucede invariavelmente a primavera.
É sábado e véspera de dia de Páscoa. Como de
costume, as margens do rio Lima oferecem-nos um entardecer tranquilo
onde o sol que se esconde para os lados de Viana espalha sobre as águas
os seus raios como longas madeixas ruivas. Na Praça de Camões
perfilam-se os bonecos que hão-de ser "executados" após a leitura do
respectivo testamento. O bojo está recheado de fogo produzido pelos
pirotécnicos da região, por sinal dos mais conceituados a nível
internacional. O povo junta-se. Faz-se a leitura do "testamento do judas"
onde se descobrem algumas verdades e, eis então que lhe é pegado o fogo.
O boneco começa por rodopiar até que, uma quantidade maior de pólvora
que é armazenada na cabeça o faz finalmente explodir. No dia seguinte é
dia de aleluia e o povo vai, com a cruz florida, percorrer os caminhos
da aldeia e visitar amigos e familiares onde a cruz é dada a beijar. É o
compasso pascal, uma das tradições de grande beleza em toda a região de
Entre-o-Douro-e-Minho !
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