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Uma vez mais, por ocasião da passagem de
ano, a comunicação social vai mostrar-nos um grupo folclórico
proveniente de uma região algures do país a cantar as janeiras ao
Presidente da República e ao Primeiro-ministro e a serem recebidos com
grande hospitalidade nas respectivas residências oficiais. Trata-se de
um momento particularmente enternecedor porquanto ficamos plenamente
persuadidos de que, ao receber em suas casas a gente simples que lhes
bate à porta para lhes pedir alvíssaras e entoar umas quadras ao jeito
popular, suas excelências partilham dum profundo sentimento de pertença
ao povo pelo que, tal como este, apreciam os gestos humildes e a nossa
cultura tradicional.
Mas, quando procuramos recordar aquilo que,
enquanto governantes, fizeram pela preservação do nosso folclore
enquanto parte integrante da cultura do povo português, constituindo o
seu próprio património imaterial, somos assaltados pela sensação de que
fomos burlados e que, afinal de contas, toda aquela exibição perante as
câmaras de televisão que ali são chamadas a registar o acontecimento não
passa de uma farsa. Aliás, também para as estações televisivas esse
constitui o único pretexto para que um grupo folclórico possa ser
transmitido. Mas, ainda assim, continuaremos a bater-lhes à porta para
lhes pedir alvíssaras!
Aqueles que ao folclore dedicam grande parte
das suas vidas são uma espécie de “pau para toda a obra”. Em
tempo de campanha eleitoral, lá estão os ranchos folclóricos a animar os
comícios ou, seguindo atrás dos candidatos, a rufar os bombos para que o
povo se aproxime. Frequentemente, a animação reduz-se à tocata que desse
modo participa disfarçada como se de uma mera claque partidária
se tratasse. O entusiasmo dos folcloristas que participam em tais
campanhas é proporcional à probabilidade do candidato vir a ser eleito
ou, porventura, do contrato estabelecido com vista à sua participação e
prende-se inevitavelmente com a perspectiva de poder vir a receber
alvíssaras… por isso, correm atrás de qualquer um, desde os que
concorrem para os cargos mais elevados aos que apenas anseiam o governo
da paróquia.
A disponibilidade de alguns ranchos
folclóricos não tem limites, indo ao ponto de participar nas
manifestações sindicais como um palhaço anima o circo. É que, como
facilmente se deduz, caso a actuação não seja imediatamente paga, sempre
existirá a esperança de algum sindicalista vir a ocupar um cargo
político. E, caso tal hipótese venha a concretizar-se, poderá o dito
rancho vir a receber alvíssaras.
Contudo, aqueles que em tais ocasiões se
fazem rodear por grupos folclóricos que os ajudam nas suas campanhas ou
vão bater à sua porta para lhes cantar as janeiras são precisamente os
mesmos que frequentemente se referem ao folclore de forma depreciativa,
insistem em lembrar que foi um dos três efes com que o anterior regime
alienava o povo e não o consideram nos grandes eventos culturais nem lhe
conferem apoio e visibilidade ao contrário do que sucede com outros
investimentos em realizações de interesse cultural duvidoso.
Todos nós sabemos o desprezo com que o
folclore é tratado, atitude que é extensível a todos quantos a ele se
dedicam. Mais ainda, sentimos o estigma a que o mesmo foi votado por,
alegadamente, ter sido utilizado como instrumento de propaganda do
Estado Novo, deduzindo-se desse facto uma cumplicidade e um saudosismo
reaccionário por parte daqueles que amam aquilo que de mais genuíno nos
pertence. Desdém, aliás, que não exclui milhares de jovens que jamais
chegaram a conhecer o anterior regime. Lamentamos constantemente a falta
de apoio a que o folclore é votado. Mas, respeitosamente curvados,
continuaremos a bater-lhes à porta na expectativa de algum dia poder o
folclore vir a receber alvíssaras! |