|
O Minho caracteriza-se no que ao
folclore e à
etnografia diz respeito
pelo colorido exuberante dos seus
trajes e a alegria jovial das suas
danças e cantares. Não existe, porventura, região do país onde a
representação do folclore seja vivida tão intensamente nas suas
festas e romarias, aliando o seu esplendor à beleza inigualável das suas
paisagens verdejantes, salpicadas aqui e acolá de pequenas capelinhas
aonde o povo acorre em sincera devoção.
Viana do Castelo reclama para si o título de “capital” enquanto
Ponte de Lima se considera o “berço” do folclore. Um pouco por
todo o lado, surgem grupos folclóricos com as suas tocatas e o seu
renque de moças garbosas exibindo vestindo os seus trajes domingueiros
de lavradeira. E o povo não se cansa de os ver a actuar, uma vez após
outra, executando o vira e a
chula, a rusga e a
cana-verde, danças cuja coreografia todos já saber de cor.
Os denominados ranchos folclóricos não constituem criações
genuínas do povo porquanto a sua existência apenas corresponde a uma
tentativa de preservação de um património cuja sobrevivência se
encontrava ameaçada pela sociedade moderna. Por conseguinte, a sua
existência corresponde a uma forma de
musealização de um passado
sobretudo rural. Mas, ao atravessar diferentes períodos históricos, o
folclore foi submetido às mais variadas intervenções com vista a servir
os propósitos de diversos regimes, tanto como veículo ideológico como
instrumento de propaganda e de promoção turística.
Ao tempo da I República cuja implantação agora se celebra, serviu o
folclore para emprestar o seu colorido em desfiles e certames
industriais e como fantasia carnavalesca muito ao gosto da burguesia
urbana a substituir a grosseira figura do xexé. O Estado Novo,
porém, foi mais longe ao pretender aperfeiçoá-lo, introduzindo
modificações visíveis nos seus trajes, nas músicas e nas coreografias,
por assim dizer estilizando-o!
E, sendo a maioria dos trajes do Alto Minho porventura os mais vistosos
e as suas danças as mais animadas, foi seguramente o seu folclore dos
mais afectados com o intervencionismo cultural do regime que deixou
profundas marcas que parecem ter ficado para sempre. Pese embora o
elevado número de grupos folclóricos existentes na região, o trabalho de
pesquisa e análise é praticamente inexistente, limitando-se muitos deles
a reproduzir mecanicamente velhos reportórios tomados como
inquestionavelmente verdadeiros.
Grupos folclóricos existem que se apresentam publicamente muito bem
fardados – mas não trajados! – e por vezes exibindo peças de
vestuário que não correspondem à região que dizem representar, quando
não incluem fantasias e acessórios estranhos ao elemento original.
Enquanto eles cobrem a cabeça com um chapéu à toureiro, elas
fazem rodopiar as saias de forma a exibirem a intimidade com uma ousadia
impensável para a mulher dos finais do século XIX. E, à falta de melhor
receita para obter sucesso junto da assistência, até já existe quem
inclua na sua representação deploráveis cenas de embriaguez como se de
folclore se tratasse.
A dificuldade que, em regra, se revela na aceitação da crítica impede-os
de fazerem um trabalho sério que se torne verdadeiramente útil para o
folclore, assente na investigação e não mais no copianço e na
imitação. Não basta tocar a sarronca para que se possa dizer que
é folclore! |