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A concepção museológica do Estado Novo
A
formação de uma verdadeira consciência nacional e a elevação do espírito
patriótico, a valorização do trabalho e da vida familiar, das virtudes
religiosas e do modo de vida simples do povo, das suas tradições locais
e a identidade regional constituíam preocupações do Estado Novo no que
concerne à gestão do património cultural do país e, mormente, dos
espaços museológicos.
Preconizando o Prof.
António de Oliveira Salazar a “restauração material, restauração
moral e restauração nacional”, o Estado Novo encetou um processo de
recuperação e restauro de castelos, catedrais, conventos e outros
edifícios de grande valor simbólico. Instituiu e promoveu uma série de
celebrações patrióticas, entre as quais se salientam as comemorações da
Fundação e da Restauração de Portugal, que culminaram com a Exposição do
Mundo Português, a criação do Museu de Arte Popular e a requalificação
da área de Belém com o Padrão das Descobertas, a fonte luminosa, os seus
espaços ajardinados e motivos escultóricos. Para o Estado Novo, o museu
passa a constituir um instrumento de doutrinação e veiculação
ideológica, um tanto aliás à semelhança do que o anterior regime já
fizera ao instituir o chamado “Museu da Revolução”.
Contudo, a política
do Estado Novo vai mais longe e, a partir dos anos sessenta, reflectindo
uma certa abertura para as realidades externas, o panorama museológico
começa a registar algumas mudanças, privilegiando a exposição de peças
de real valor histórico ou artístico, ordenadas de forma sistematizada e
atraente, implementando meios de atrair os visitantes e exercer acção
pedagógica nomeadamente através da edição de publicações e organização
de visitas guiadas. Em regra e salvo poucas excepções, quase todos os
museus foram instalados em edifícios já existentes, apenas adaptados
para esse fim, revelando invariavelmente limitações de toda a ordem que
vão desde a segurança das instalações e do espólio existente às
condições ambientais, nem sempre as mais indicadas à preservação das
peças expostas.
Esta situação
contraria os mais modernos preceitos da museologia, mormente no que
respeita aos critérios que devem presidir à construção e disposição do
espaço museológico, às condições que possibilitem a valorização do
espólio, proporcionem ao visitante o conforto que lhe permita apreciar
nas melhores condições os objectos expostos, assegurem a sua longevidade
e permita dispor de espaços de apoio nomeadamente à catalogação,
acondicionamento, restauro e conservação das peças, bem assim como a
utilização de novas tecnologias necessárias ao cumprimento da missão do
museu que consiste na transmissão de conhecimentos.
Trata-se de uma
realidade que parece bastante actual, considerando nomeadamente o
aproveitamento que vai ser feito das antigas instalações do Museu de
Arte Popular para a instalação do Museu da Língua Portuguesa.
Não obstante, embora
timidamente, ainda antes de 1974 começam a surgir os primeiros museus em
edifícios expressamente construídos com essa finalidade, como aliás se
verifica com o Museu Calouste Gulbenkian. Também em 1965 se verifica o
aparecimento da Associação Portuguesa de Museologia que se destina
essencialmente a agrupar conservadores de museus, historiadores,
restauradores e críticos de obras de arte, promovendo simultaneamente o
conhecimento das mais modernas técnicas de museologia através de
conferências e publicações. Com efeito, estas mutações prenunciam já o
final de um ciclo que se vem a verificar naturalmente com a mudança de
regime político, após o derrube do Estado Novo em 1974.
A não ser que o
projectado “Museu da Língua Portuguesa” seja, na realidade, apenas uma
galeria cultural e não propriamente um espaço museológico como a sua
designação indica, surpreende-nos a ideia de governantes portugueses e
brasileiros pretenderem colocar num museu uma língua viva com mais de
duzentos milhões de falantes. Mas, sem pretender questionar tal opção,
estamos plenamente convencidos de que o Museu de Arte Popular deveria
conservar a sua unidade e permanecer no local para onde foi concebido,
não apenas por razões históricas mas sobretudo por critérios de natureza
estética e de definição do público destinatário.
O
Museu de Arte
Popular não constitui mais um museu regional de características
etnográficas mas de um espaço, à semelhança do Museu das Artes e
Tradições Populares, de Paris, entre muitos de outras capitais europeias,
concebido para dar a conhecer aos portugueses em geral e a todos quantos
nos visitam, os usos e costumes das nossas gentes, as suas raízes
culturais e a sua verdadeira identidade. Tal como aqueles, deveria ter
sido apetrechado com meios mais lúdicos, aproveitando as novas
tecnologias e não, como agora sucedeu, limitar-se a ser extinto.
Esperemos que o Museu de Etnologia conserve a sua unidade e o espírito
para que foi criado ou seja, o de preservar a memória dos costumes do
povo português.
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