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O
Museu de Arte
Popular encerrou as suas portas para dar lugar ao “Museu da Língua
Portuguesa”. Ao contrário do que se verifica noutras capitais
europeias, o povo português deixou de possuir em Lisboa um espaço
museológico onde dava a conhecer as suas tradições mais genuínas, o seu
artesanato e os seus trajes característicos, enfim os seus usos e
costumes. Entretanto, a actual ministra da Cultura veio a público
garantir que aquele espaço continuará a alojar o referido Museu de Arte
Popular, embora renovado e em moldes actuais, o que também de algum modo
nos parece uma contradição atendendo a que os critérios museológicos que
presidiram à sua organização também valem por si mesmos em termos de
preservação do património cultural uma vez que marcam uma determinada
época.
Constituído em 1948,
no âmbito da Exposição do Mundo Português, então com a designação de “Pavilhão
da Vida Popular”, o seu acervo reunia um conjunto de peças que foi
apresentada na Exposição de Arte Popular Portuguesa que teve lugar em
Genebra, em 1935. O seu espólio repartia-se por diferentes salas
dedicadas às mais diversas regiões do país e ainda um espaço para
exposições temporárias, nelas predominando as cerâmicas e as alfaias
agrícolas, os trajes e instrumentos musicais tradicionais, a joalharia e
as artes de pesca, as carroças e a cestaria, a maioria das quais
recolhida nos começos do século passado.
Como complemento do
Museu de Arte Popular, funcionava no espaço exterior uma feira de
artesanato denominada por “Mercado da Primavera”, tendo mais
tarde mudado o nome para “Mercado do Povo”. Constituía um espaço
de animação e divulgação da cultura tradicional, acorrendo àquele local
numerosos artesãos vindos de todo o país, incluindo a célebre Rosa
Ramalho, criadora dos galos de Barcelos.
A decisão de ali
instalar o Museu de Arte Popular coube ao ministro António Ferro e o
edifício foi originalmente concebido pelo arquitecto Veloso Reis, tendo
posteriormente sido sujeito a remodelação com vista a acolher o museu,
tendo o projecto de adaptação pertencido ao arquitecto Jorge Segurado. O
Museu de Arte Popular constituiu seguramente o exemplar mais
representativo das concepções museológicas e ideológicas do Estado Novo,
facto que só por si justificaria a sua continuidade e preservação.
Porém, não foi esse o entendimento das entidades governamentais, a
começar pela anterior ministra da Cultura que preconizava inclusivamente
a sua demolição. Ao que tudo indica, o seu espólio foi transferido para
o Museu de Etnologia, do qual ultimamente fazia parte como “Núcleo de
Arte Popular”.
Incapazes de
conceberem de raiz, em tempo útil, um edifício adequado ao projectado
Museu da Língua Portuguesa e para não ficarem atrás do Brasil que já
concebeu uma iniciativa idêntica, o Ministério da Cultura optou por
aproveitar para esse fim uma obra que não apenas do ponto de vista
histórico, como arquitectónico e escultórico nos remete para a estática
defendida pelo Estado Novo. Na realidade, à excepção do Mosteiro dos
Jerónimos, quase toda a área de Belém foi concebida nessa época para a
realização da Exposição do Mundo Português, incluindo a fonte luminosa e
o Padrão das Descobertas. E, não tivesse o Pavilhão de Honra e de Lisboa
da referida exposição sido construído em material perecível, não
teríamos entretanto assistido às polémicas estéreis que envolveram a
construção do Centro Cultural de Belém.
Na realidade, o Museu
de Arte Popular nunca foi visto com agrado pelas entidades responsáveis
que quase sempre o deixaram ao abandono e a necessitar de obras de
restauro. O Mercado da Primavera foi extinto e o seu espaço vandalizado,
praticamente nada restando da sua decoração original. No entanto, apesar
da sua escassa divulgação, sempre atraiu visitantes nacionais e
estrangeiros e os seus responsáveis acarinharam vários grupos
folclóricos que ali se deslocavam ou procuravam apoio.
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