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(Continuação...)
À medida que a colónia ovarina foi crescendo
em número, os negros que habitavam o bairro foram desaparecendo até que,
no século XIX, o antigo topónimo foi abandonado e substituído pela sua
actual designação, tomada da antiga rua da Madragoa, actualmente
denominada por rua do Vicente Borga. Quanto à origem do topónimo
Madragoa persistem várias interpretações, não sendo ainda ponto assente
o seu significado.
E, a gente vareira que passou a dominar por
completo aquele típico bairro lisboeta, conferiu-lhe uma forma peculiar
de vivência marcada pelos jeitos graciosos das suas varinas de canastra
de peixe à cabeça e os pregões que característicos. A vizinhança mantém
a proximidade que caracteriza os bairros piscatórios e, bem no centro do
bairro, na taberna que foi da Maria Barbuda e onde nasceu Maria
Honofriana Severa, a fadista que se tornou uma lenda do
fado, um velho
fogueteiro minhoto preserva quadros de antigos grupos excursionistas,
alguns dos quais deram origem a colectividades de cultura e recreio,
enquanto na rua os galináceos passeiam em completa liberdade.
Nas proximidades do bairro, a Casa do
Concelho de Ovar manteve-se em actividade até meados da década de
setenta, altura em que foi extinta. As gerações mais novas já nasceram
no bairro e passaram a identificar-se mais com Lisboa do que com as
raízes dos seus ancestrais. Entretanto, o cais da Ribeira Nova foi
perdendo a azáfama de outrora. O mercado da Ribeira foi transferido para
novas instalações construídas no concelho de Loures, nos arredores de
Lisboa. O antigo Convento das Bernardas que chegou a alojar mais de meio
milhar de pessoas em condições deploráveis foi submetido a obras de
recuperação e muitos dos seus antigos moradores transferiram-se para os
bairros da periferia. A população encontra-se actualmente bastante
reduzida e o bairro perdeu em grande medida a alegria e vivacidade de
outrora. Porém, o seu traço castiço e típico persiste nomeadamente
quando a sua juventude á chamada a representá-lo nos desfiles das “marchas
populares”, criação fantasiosa que não se confunde com folclore e
etnografia, mas que não deixa de aludir às tradições mais peculiares de
cada bairro com recurso a coreografias e adereços ao jeito do teatro de
revista à portuguesa.
Muito provavelmente, ninguém como Cesário
Verde conseguiu captar em verso a ruralidade de Lisboa, as formas de
vida, encontrando nela a província e os seus costumes nos modos das suas
gentes. São deles, aliás, estes versos que retratam precisamente as suas
varinas: |
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Nas nossas ruas, ao
anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer
(…)
Vazam-se os arsenais
e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as
ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas
Descalças! Nas
descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
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(*) Jornalista, Licenciado
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