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Para além do encanto que envolve a vivência do povo no ambiente rural,
no contacto com a natureza e na sua relação com as coisas simples, a sua
existência nem sempre foi a mais feliz. Muitas foram as vezes que o pão
faltou na mesa do jornaleiro e este foi forçado a trabalhar duramente,
do nascer ao pôr-do-sol, para ganhar o sustento da família.
Na
sua existência miserável também ocorreram situações mais tristes,
degradantes mesmo, que em nada dignificam a sua humanidade. Quantas
vezes, afogou o camponês no vinho as mágoas que o afligiam, as angústias
que o atormentavam, os sonhos por realizar e todas as suas frustrações.
Mas não é a sua condição miserável que devemos exaltar quando nos
propomos a preservar o seu folclore, a dar a conhecer os seus
usos e
costumes. Não é o seu lado animalesco que pretendemos relevar mas a sua
dignidade, traduzido no trabalho e na alegria, no seu saber e nos
valores humanos que sempre o norteiam, mesmo quando tem de se submeter
às maiores provações.
Quando um rancho folclórico sobe ao palco para dar a conhecer as
tradições da sua região, deve fazê-lo com a maior dignidade e no
respeito para com o povo que diz representar. Deve exibir os seus
trajes
com asseio e autenticidade, actuar com aprumo e esmero e jamais de forma
insolente e desleixada. Pode nomeadamente incluir pequenas
representações teatrais para enquadrar a sua actuação e melhor dar a
conhecer uma determinada tradição, como sucede com a demonstração de uma
desfolhada, o ciclo do linho ou uma malhada do centeio. Mas jamais deve
confundir miséria com folclore nem degradação humana com
etnografia!
Um
determinado grupo folclórico com referência a um concelho alto-minhoto
tem desde há uns tempos a esta parte a infeliz ideia de representar em
palco uma zaragata provocada por um bêbado, assumindo tão triste e
lamentável demonstração como a mais genuína das representações
etnográficas, transmitindo dessa forma um retrato de tal forma decadente
da sua própria gente.
Não entendo como certas pessoas se prestam ainda ao desempenho de papéis
tão degradantes que só podiam surgir de mentes deformadas de quem dirige
tais grupos e para quem o folclore se confunde com alcoolismo e a
etnografia se resume a uma zaragata de feira. Estes ditos “grupos de
folclore” em nada contribuem para a dignificação do folclore nem tão
pouco dos jovens que os integram, os quais parecem não terem ainda
revelado o discernimento suficiente para repudiar tais representações.
A
situação é tanto mais grave e deplorável quando se trata de uma entidade
que um dia foi oficialmente reconhecida como sendo de “utilidade
pública” e em relação à qual se esperava um maior sentido de
responsabilidade. É que, para além de nada ter a ver com a divulgação do
folclore e da etnografia, tal forma de actuação apenas constitui uma
forma de denegrir a sua região e as respectivas gentes e, sobretudo,
constitui um meio pouco edificante de levar o conhecimento do folclore
aos mais jovens. Resta-nos saber se os seus promotores terão a humildade
suficiente para reconhecer o erro em que incorrem! |