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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Miséria não é Folclore - Degradação humana não é Etnografia
 

 

Carlos Gomes(*)

Para além do encanto que envolve a vivência do povo no ambiente rural, no contacto com a natureza e na sua relação com as coisas simples, a sua existência nem sempre foi a mais feliz. Muitas foram as vezes que o pão faltou na mesa do jornaleiro e este foi forçado a trabalhar duramente, do nascer ao pôr-do-sol, para ganhar o sustento da família.

Na sua existência miserável também ocorreram situações mais tristes, degradantes mesmo, que em nada dignificam a sua humanidade. Quantas vezes, afogou o camponês no vinho as mágoas que o afligiam, as angústias que o atormentavam, os sonhos por realizar e todas as suas frustrações. Mas não é a sua condição miserável que devemos exaltar quando nos propomos a preservar o seu folclore, a dar a conhecer os seus usos e costumes. Não é o seu lado animalesco que pretendemos relevar mas a sua dignidade, traduzido no trabalho e na alegria, no seu saber e nos valores humanos que sempre o norteiam, mesmo quando tem de se submeter às maiores provações.

Quando um rancho folclórico sobe ao palco para dar a conhecer as tradições da sua região, deve fazê-lo com a maior dignidade e no respeito para com o povo que diz representar. Deve exibir os seus trajes com asseio e autenticidade, actuar com aprumo e esmero e jamais de forma insolente e desleixada. Pode nomeadamente incluir pequenas representações teatrais para enquadrar a sua actuação e melhor dar a conhecer uma determinada tradição, como sucede com a demonstração de uma desfolhada, o ciclo do linho ou uma malhada do centeio. Mas jamais deve confundir miséria com folclore nem degradação humana com etnografia!

Um determinado grupo folclórico com referência a um concelho alto-minhoto tem desde há uns tempos a esta parte a infeliz ideia de representar em palco uma zaragata provocada por um bêbado, assumindo tão triste e lamentável demonstração como a mais genuína das representações etnográficas, transmitindo dessa forma um retrato de tal forma decadente da sua própria gente.

Não entendo como certas pessoas se prestam ainda ao desempenho de papéis tão degradantes que só podiam surgir de mentes deformadas de quem dirige tais grupos e para quem o folclore se confunde com alcoolismo e a etnografia se resume a uma zaragata de feira. Estes ditos “grupos de folclore” em nada contribuem para a dignificação do folclore nem tão pouco dos jovens que os integram, os quais parecem não terem ainda revelado o discernimento suficiente para repudiar tais representações.

A situação é tanto mais grave e deplorável quando se trata de uma entidade que um dia foi oficialmente reconhecida como sendo de “utilidade pública” e em relação à qual se esperava um maior sentido de responsabilidade. É que, para além de nada ter a ver com a divulgação do folclore e da etnografia, tal forma de actuação apenas constitui uma forma de denegrir a sua região e as respectivas gentes e, sobretudo, constitui um meio pouco edificante de levar o conhecimento do folclore aos mais jovens. Resta-nos saber se os seus promotores terão a humildade suficiente para reconhecer o erro em que incorrem!

(*) Jornalista, Licenciado em História


 

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