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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Quem são e o que fazem os minhotos radicados em Lisboa?

 

Carlos Gomes(*)

(Continuação...)

Por vezes, a experiência não resultava e o retorno às origens constituía o recurso óbvio. Ou então partiam para o Brasil onde todos os minhotos sempre têm um familiar que para ali emigrou, não raras as vezes escondidos nos porões dos navios. Os que foram ficando e construíram uma nova vida, chamavam a família, os conterrâneos e os amigos, encaminhando-os invariavelmente para o mesmo ramo de actividade em que se ocupavam, na maioria dos casos à testa de um balcão de estabelecimento comercial.

Porém, as profissões que exerciam também tinham em grande medida a ver com a sua experiência e hábitos trazidos das suas terras. Assim, constatamos que, de Caminha e Viana do Castelo vieram para Lisboa sobretudo pedreiros, estucadores e carpinteiros, do Soajo e Ponte da Barca os padeiros, de Covas, Ponte de Lima e Paredes de Coura os taberneiros e carvoeiros que transformaram as velhas e típicas tabernas nos modernos restaurantes. De Amares e Terras de Bouro saíram empregados de pensões e hotéis. De Melgaço, Monção e outras vilas do litoral ingressaram muitos dos seus filhos na Marinha de Guerra enquanto de Paredes de Coura e outras localidades do interior optaram pelas forças de segurança. Em relação às mulheres, o trabalho de empregada doméstica, vulgo de “sopeiras”, não era bem encarado entre as gentes minhotas pelo que, a maioria apenas vinha para Lisboa após o casamento e com o marido já estabelecido no negócio.

Contudo, não foi apenas gente humilde e pobre, como por vezes se julga, que deixou a sua terra para se instalar na capital. Embora em menor número, houve também arquitectos, advogados, jornalistas, sacerdotes, militares de carreira e titulares de outras profissões com estatuto social mais elevado que se fixaram em Lisboa, ao lado daqueles que se submetiam a uma vida de escravidão para conseguirem sobreviver em condições melhores do que aquelas que a terra lhes permitia.

Com a progressiva fixação dos minhotos, vieram os filhos e os netos já nascidos na grande cidade, beneficiando das condições de vida alcançadas pelos seus progenitores. Ao contrário das gerações antigas, os mais jovens puderam ter acesso a níveis superiores de instrução e ao usufruto de bens culturais que antes eram inacessíveis. Possuem naturalmente diferentes hábitos e formas de estar na sociedade, outros motivos de interesse e sobretudo uma mentalidade substancialmente diferente adquirida em contacto com outras pessoas de diversas origens culturais, num ambiente que é característico das grandes metrópoles. Não obstante, sentem pela terra dos seus pais um carinho e uma nostalgia como se lá tivessem nascido e permanecido durante a maior parte das suas vidas. São minhotos, autênticos, não de origem mas de coração!

Bibliografia:
GOMES, Carlos. Regionalismo em Portugal. Subsídios para a sua História.
Casa do Concelho de Ponte de Lima. 1997. Lisboa
 

(*) Jornalista, Licenciado em História

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