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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Janeiras e Reisadas

Carlos Gomes (*)

Chegou o Janeiro e com ele as janeiras. Pelos caminhos das aldeias seguem os reiseiros com as suas violas e bandolins, harmónios e cavaquinhos, indo de porta em porta cantar os reis e pedir alvíssaras. No Minho cantam os Reis Velhos e os Reis Galegos. As portas abrem-se para os receber e o anfitrião é presenteado com descantes como o menino o foi pelos reis magos com oiro, incenso e mirra no dia do seu nascimento. Após escutar com atenção os versos que lhe foram dedicados, o dono da casa convida-os a entrar e recebe-os com algumas iguarias que retira do fumeiro. Se quem recebe é generoso pode festa durar até às tantas. Contudo, se a espórtula é fraca e o acolhimento pouco amistoso, os reiseiros lançam-lhe à despedida algumas quadras satíricas em lugar dos habituais agradecimentos.

Nalgumas localidades como sucedia nas terras da Maia, o povo erguia no adro da igreja um palanque onde era representado um auto que, regra geral, se dividia em três actos ao longo dos quais se narrava a história do nascimento do messias, desde a perseguição movida por Herodes até à adoração do menino pelos pastores e pelos reis magos. As gentes maiatas por exemplo, iniciavam os ensaios das reisadas ou embrechados como também eram designadas, logo após as colheitas e a representação das diferentes personagens era quase sempre feita pelos mesmos que haviam representado no ano anterior ou então era o seu desempenho passado para outra pessoa da mesma família, sucedendo não raras as vezes que os membros de uma determinada família passavam a ser conhecidos pelo  nome das personagens que invariavelmente representavam.

Como é evidente, o costume de cantar os reis ou as janeiras prende-se com a tradição cristã do nascimento do menino Jesus e das oferendas feitas pelos reis magos quando estes se dirigiram à gruta de Belém. Não obstante e à semelhança do que sucede com as demais festividades de índole cristã, também esta possui raízes bem mais profundas que remontam ao paganismo primitivo e que se relacionam com as festividades solsticiais que ocorriam precisamente na mesma altura a que foi atribuído o nascimento de Jesus, embora sem provas que fundamentem tal acontecimento. É, com efeito, o começo do ano solar ou seja, os primeiros dias que se seguem ao "nascimento do sol" e os raios solares crescem de novo, passando o seu tempo de duração a aumentar de dia para dia, reiniciando-se o percurso que leva invariavelmente ao renascimento da natureza e dos vegetais com o entrudus da Primavera. A nossa civilização cristã mais não faz do que assimilar tais costumes antiquíssimos conferindo-lhes uma nova interpretação mais consentânea com os seus ensinamentos bíblicos.

Entre os romanos, Jano era celebrado como o deus dos portões e dos começos, do céu luminoso e das origens e, por conseguinte, o princípio de toda a existência, razão pela qual o seu nome era inicialmente invocado mesmo antes do próprio nome de Júpiter. Em virtude disso, foi o seu nome atribuído ao mês que passou a designar-se por Janeiro e que se segue ao solstício do inverno após ter passado a primeiro mês do calendário romano com a reforma introduzida por Numa Pompílio. Ora, a designação de janeiras ou janeiradas pela qual passaram a ficar conhecidas as reisadas apenas se deve ao facto das mesmas ocorrerem no primeiro dia do ano, não obstante o costume as prolongar até ao dia de reis ou "Adoração dos Reis Magos" que em Portugal se celebra no dia 7 de Janeiro.

Mas, sob uma forma mais ou menos cristianizada, o costume permanece e chega até nós graças à tradição, atravessando gerações e sofrendo as influências de cada época. E, o que se afigura mais notável, numa altura em que a toda a actividade humana é retirada a sacralidade que caracterizava as sociedades antigas, a espiritualidade cede o lugar aos bens materiais e outras ilusões terrenas, eis que o Homem faz renascer de novo as suas velhas tradições e estas regressam cada vez com maior brilho e fulgor. É que, sob pena de um retorno à condição animal, o ser humano jamais pode abdicar da sua essência da qual faz parte integrante a sua própria dimensão espiritual.

Uma fez terminadas as reisadas, é tempo de semear o centeio e o tomate, a cenoura e o feijão, preparar as terras para as culturas do inverno e covais para novas plantações, proceder à transfega dos vinhos e adubar as terras.

Em breve chegará o entrudus e com ele o folguedo que se destina a preparar a serração da velha e a entrada da Primavera. Até lá, cantemos os reis e revivamos as nossas tradições para que estas continuem a ser o que sempre foram!

(*) Jornalista, Licenciado em História

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