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Os
grupos folclóricos constituem
repositórios dos usos e costumes de uma
determinada região ou localidade com referência a uma época que deve ser
claramente identificada. Por conseguinte, desde que se apresentam
trajados – e não apenas em palco – os seus componentes devem cuidar da
sua aparência para que a representação que fazem seja coerente e, dessa
forma, conferida de dignidade.
Sucede que, não raras
as vezes, a postura de muitos elementos que os integram difere
substancialmente no palco e fora dele, esquecendo-se que a sua missão
não começa e termina no tabuado mas antes e depois da sua actuação, uma
vez que continuam a exibir-se com os seus
trajes característicos.
Em todas as épocas,
as modas sempre exerceram influência sobretudo nos mais jovens. E, sendo
os grupos folclóricos formados por pessoas que vivem o seu tempo e não
propriamente a época dos seus ancestrais, a qual procuram representar,
não podiam também deixar de serem permeáveis a tais influências. Assim,
tempos houve em que os sapatos envernizados se misturavam com o traje
tradicional e, sob o característico lenço sobressaiam as franjas do
cabelo e exibiam-se cortes em voga nos anos sessenta. Mais ainda, as
moças apresentavam-se frequentemente maquilhadas, de unhas pintadas e
pestanas postiças, quando não mesmo de minissaia como sucedeu nalguns
casos.
Tendo tais hábitos há
muito passado de moda, essas manifestações parecerem agora ridículas aos
olhos dos que actualmente integram os ranchos folclóricos, porventura
mais sensibilizados para a necessidade de se preservar o que há de mais
genuíno. Esquece-se, porém, que tal como se verificou no passado,
continua a moda a pregar as suas partidas e o folclore não está
incólume. E, se antes surgiram os sapatos de verniz, proliferam agora os
sapatos de pala e de sola vulcanizada, as maquilhagens deram lugar a
tatuagens, piercings e brincos nas orelhas, os penteados de
franja aos rabos-de-cavalo exibidos pelos rapazes e – de todas a
que presentemente mais se generalizou – os sofisticados e coloridos
óculos rectangulares que são o último grito da moda!
Não reside o problema
na sua utilização por parte das pessoas mas apenas na possibilidade dos
mesmos não serem exibidos no contexto da actuação de um grupo
folclórico, a partir do instante em que o mesmo se apresenta como tal ou
seja, os seus componentes envergando os trajes que o identificam. E este
aspecto é bastante mais relevante do que a utilização do respectivo
estandarte, pese embora também este não constituir um elemento
etnográfico.
Porém, erros existem
que, tendo-se originado em épocas passadas, teimam em persistir nos
tempos que correm, como sucede com a forma e o tamanho das saias
propositadamente desenhadas para que a mulher possa exibir publicamente
o que outrora apenas fazia na intimidade. E, numa era em que a
utilização das novas tecnologias também faz moda, é ver repórteres
de ocasião a registar nas suas câmaras autênticas
longas-metragens de upskirt para uso privado ou mesmo para
transmissão pública, em sessões contínuas através da Internet,
como se de folclore tais exibições se tratassem. Pior ainda, tais
imagens transmitidas até à exaustão, longe de promoverem o folclore,
apenas o degradam e desprestigiam, ridicularizando os grupos folclóricos
e apenas servindo os objectivos comerciais que quem as utiliza.
E, para dar um ar de
grande mediatismo ao espectáculo de folclore, sugerindo que as suas
imagens estão a ser captadas por uma qualquer estação televisiva para
serem posteriormente transmitidas para todo o mundo e arredores, os
pretensos cameramans, qual praga infestante a conspurcar o
espectáculo, pululam insolentemente por entre os componentes dos ranchos
folclóricos perante o olhar complacente e aparvalhado dos seus
responsáveis.
Numa altura em que a
imagem é de sobremaneira valorizada, importa que a mesma seja gerida de
forma cuidada, com parcimónia, sob pena de denegrir aquilo que se
pretende mostrar ou seja, o folclore e o próprio rancho que procura
representá-lo. E, essa preocupação começa na forma como os seus
componentes se apresentam, na sua postura em palco, mas também fora
dele, através dos seus gestos e atitudes. Mais ainda, a gestão da imagem
não deve permitir o seu registo distorcido nem a bagunça a que
frequentemente se assiste, permitindo que qualquer vulgar charlatão,
levando consigo uma câmara de vídeo, circule impunemente por entre os
componentes de um rancho folclórico. São modas a que os grupos
folclóricos devem estar imunes! |