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(Continuação...)
Na segunda metade do século XIX, a cidade de Braga destacou-se
nomeadamente pela indústria chapeleira localizada sobretudo na Freguesia
de São Víctor. Esta indústria haveria mais tarde de se transferir para
S. João da Madeira onde, aliás, veio a ser criado o Museu da Chapelaria.
Adquiriu então notoriedade o chamado chapéu braguês, de copa alta e aba
com cerca de sete centímetros de largura, cuja utilização se generalizou
em todo o Minho. Não havia lavrador que, sobretudo em dia de mercado,
não ostentasse o seu chapéu fabricado pela conceituada indústria
bracarense. E era vê-los, de chapéu na cabeça, com vara de marmeleiro e
casaca sobre os ombros a negociar o gado na feira de Ponte de Lima,
Barcelos ou noutras localidades, como aliás atestam as fotografias da
época. Não admira, pois, que os grupos folclóricos minhotos exibam com
maior frequência o chapéu braguês em relação ao barrete, existindo porém
alguns que já vão incluindo este na indumentária que exibem.
Noutras regiões do país, também o uso do chapéu se generalizou sob
diferentes formas relacionadas nomeadamente com condições climatéricas
ou de ordem prática, como sucede com o utilizado pelo maioral ribatejano
ou o chapéu de abas largas da região da
Estremadura.
Como é sabido, o traje tradicional não escapou à influência das modas
das várias épocas nem às fantasias resultantes de uma política de
turismo que utilizava o folclore também como atractivo para quem
pretendia visitar o país. E, por maioria de razão, o folclore minhoto
sofreu os efeitos dessa utilização, levando à assimilação de elementos
originariamente estranhos que vieram a perdurar no tempo e a adquirir
foros de autenticidade. E, atendendo a que tal situação se verificou
principalmente em grupos folclóricos de renome que foram destacados ao
tempo do Estado Novo, as adulterações acabaram sendo reproduzidas por
outros grupos posteriormente constituídos que tomarem aqueles como
referência em vez de procederem à sua própria investigação.
O chapéu braguês constitui precisamente um dos acessórios do traje
minhoto que tem sido objecto de adulteração, sobretudo entre os grupos
folclóricos da região do Alto Minho. Para além de, na maior parte dos
casos já não corresponder ao que era outrora usado, a imaginação e a
fantasia levam-no a incluírem nele diferentes adornos e enfeites e até,
nalguns casos, irem ao ponto de lhe darem o aspecto do chapéu de
toureiro.
Sucede que, para sobreviver, o minhoto ocupava a maior parte do seu
tempo na lavoura que era a base do seu sustento. E, assim sendo, não se
explica facilmente porque, em muitos grupos, os minhotos aparecem
invariavelmente em traje de festa – eles de fato domingueiro e elas com
o seu característico “traje à vianesa” – como se tratasse de um
povo preguiçoso que mais não soubesse do que cantar e bailar, ao jeito
da letra do malhão. Por conseguinte, faltam em muitos grupos
folclóricos as figuras que caracterizam as várias actividades da
respectiva vivência rural, incluindo o pastor das regiões montanhosas
das Argas, da Peneda e do Gerês com as suas coroças de junco.
Pese embora a adopção do chapéu braguês na indumentária exibida pelos
grupos folclóricos, ao contrário do que se verifica com o típico barrete
camponês, não se trata de um acessório genuíno mas antes um produto da
era industrial, a qual veio ameaçar de extinção os antigos costumes
rurais que se procuram representar e que acabaria por suscitar a criação
de grupos de folclore com o objectivo de preservar as mais genuínas
tradições populares, fenómeno este que surge precisamente em Inglaterra
e noutros países industrializados. |