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O acto de atribuição do nome próprio a um indivíduo à sua nascença ou à
beira da pia baptismal não constitui mais um procedimento administrativo
como se de um mero registo de matrícula se tratasse mas antes um ritual
através do qual o recém-nascido recebe uma identidade que o acompanhará
durante toda a sua vida e para além dela, enquanto a memória dos outros
seres humanos perdurar.
Primitivamente, os povos começaram por identificar-se com o totem,
geralmente um animal do qual acreditavam descenderem todos os elementos
da tribo. O costume que se mantém de utilizar nomes de animais constitui
um vestígio de tais concepções totémicas.
O hábito de atribuir o nome a uma pessoa surgiu da necessidade de a
chamar, citar e distingui-la entre as demais, no seio da família e da
comunidade a que pertence. Porém, a homonímia resultante do emprego de
um único nome gerava alguma confusão e tornava-se necessário
relacioná-la com algo ou alguém, daí tendo surgido o apelido que, com o
decorrer do tempo, se transformou em patronímico ou seja, o nome de
família por via paterna.
Por conseguinte, a escolha do nome de um indivíduo ou seja, do
respectivo antropónimo, pode ser ditado pelos mais variados motivos,
desde as circunstâncias do tempo e do lugar de nascimento ou da sua
proveniência, alusivos a qualidades morais ou a particularidades
físicas, à cronologia e a profissões ou ainda por motivos religiosos ou
políticos entre outros. Resulta isto também da crença segundo a qual o
nome que se atribui a um recém-nascido poderá exercer influência no seu
portador ou na sua vida.
Na realidade, a antroponímia revela-nos aspectos interessantes de
civilizações anteriores e das suas instituições na medida em que os
nomes são frequentemente concebidos sob o influxo religioso, político,
social e histórico, sob as mais variadas circunstâncias, transparecendo
através deles o espírito das sociedades de diferentes épocas e lugares.
Acredita-se que, em cada nome a atribuir a um recém-nascido, existe uma
espécie de predestinação de que o seu portador é investido ao recebê-lo
na pia baptismal. O mesmo princípio se aplica àqueles que, ao
ingressarem numa ordem religiosa ou iniciática recebem um novo nome, o
que em grande parte explica o significado dos nomes dados aos príncipes
e aos papas, a começar desde logo pelo herdeiro do trono do país
vizinho.
Reflexo da influência que diferentes civilizações exerceram entre nós e
contribuíram para a formação da nossa identidade, a onomástica
portuguesa regista um apreciável número de antropónimos de origem
latina, germânica, hebraica e muçulmana a que se vieram juntar os nomes
adoptados pelos cristãos-novos após a sua alegada conversão. Para além
do nome Fátima tão popular entre as mulheres muçulmanas em homenagem à
filha predilecta de Maomé, abundam em Ourém os nomes próprios e apelidos
que identificam as origens judaicas de muitos dos seus habitantes.
Também os católicos passaram a adoptar os nomes dos santos de sua
devoção ou retirados do calendário religioso para que estes se tornem
seus protectores e estimular a devoção. Tal preferência veio a originar
a popularização do nome de Maria como invocação de Nossa Senhora e ainda
José, João, Manuel e António apenas para citar alguns nomes bíblicos.
Na sociedade em que actualmente vivemos, fortemente influenciada pelo
apelo ao consumo e marcada pela superficialidade das coisas, também a
escolha dos antropónimos não escapa à erosão dos valores culturais,
reflectindo os sonhos idealizados a partir de um mundo de fantasia
oferecido através das novelas e da chamada imprensa cor-de-rosa,
rebuscando nomes por vezes originários de culturas distantes.
A escolha de um antropónimo ou seja, do nome de um recém-nascido, é pois
um acto de cultura e de identidade de um povo. Caso contrário, bastaria
identificar o indivíduo apenas pelo seu número de contribuinte ou de
conta bancária! |