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Como disse o sábio grego Platão, existem no mundo três espécies de
homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar. Essa verdade torna-se
particularmente evidente quando, na praia, as mulheres aguardam
ansiosas o regresso dos pescadores, trazendo consigo o peixe que há-de
ser o seu sustento. Mas, sobretudo, o retorno com vida para junto dos
seus. Não raras as vezes, as horas de espera angustiosa transformam-se
em luto, dor e raiva porque o mar lhes roubou o marido, deixando viúvas
e órfãos à mercê dos infortúnios da vida.
Face ao perigo que enfrenta e aos receios pelos riscos que corre, o
pescador não pode temer o mar e sentir-se dominado pelo medo: ele tem de
regressar ao mar. Caso contrário, aguarda-o a fome, a miséria e o
desprezo dos restantes membros da comunidade. A tarefa não é fácil e
alguns, revelando-se incapazes, acabam por afogar uma existência
miserável no álcool, refugiando-se nas tabernas, vendo ao longe o
bulício do cais e as embarcações zarpar.
A pescaria pode ser abundante mas, em casa do pescador, a mesa nunca é
farta. Quando está mau tempo não podem trabalhar ou perdem redes.
Existem alturas que o peixe que mal chega para custear o combustível do
barco. E, quando apanham bastante peixe, este passa a valer pouco
dinheiro… na lota, quais predadores à espera do cardume, os
intermediários disputam ávidos pelo melhor preço que lhes vai permitir
obter o maior lucro na transacção até chegar ao prato do consumidor!
A pesca é uma das actividades mais remotas do Homem representando, desde
tempos imemoriais, um dos seus meios de subsistência. Entre os
primitivos cristãos, adquiriu um significado tão especial que o peixe
constituiu um dos seus primeiros símbolos. São inúmeras as passagens
bíblicas que fazem alusão à pesca e aos pescadores. De resto,
encontravam-se entre os apóstolos de Jesus Cristo alguns pescadores,
tendo sido porventura Simão, chamado Pedro, o que ficou mais célebre por
lhe ter sido confiada a missão de ser o primeiro a chefiar a Igreja.
Aos pescadores portugueses se deve em grande parte a histórica grandeza
de Portugal porque foi também com base nos seus conhecimentos e
experiência que se planearam e realizaram os Descobrimentos marítimos,
da barca se fez caravela e das nossas praias se partiu para os quatro
cantos do mundo. Não fora o mar e as suas gentes e jamais Portugal
poderia ter permanecido como uma nação livre ao longo de mais de oito
séculos de existência.
No seio da comunidade que somos todos nós – os portugueses – constituem
os pescadores uma sociedade com o seu próprio modo de vida, a sua
característica maneira de ser, os seus usos e costumes. A sua vida é
feita junto à praia perto da qual habitam, observando diariamente o mar
à distância sempre que não entra nele para ir pescar. Em regra,
estabelecem entre si os mais estreitos laços de parentesco,
estabelecendo uma genealogia que por vezes é representada através de
símbolos, dos quais se destacam as famosas siglas poveiras. De norte a
sul do país, entre as diferentes comunidades piscatórias, liga-as uma
origem e um passado comum, a que não são alheias as medidas empreendidas
ao longo de séculos para povoar o litoral e, desse modo, garantir a
vigilância costeira e a sobrevivência das populações.
Foi ainda a preocupação em assegurar o sustento de uma população que, em
resultado da revolução industrial, registava um notável crescimento
demográfico, o que levou Portugal a virar-se de novo para o mar a partir
dos finais do século XIX, tornando-se por impulso do Rei D. Carlos um
dos países pioneiros na moderna investigação oceanográfica, o que veio
abrir caminho à industrialização da actividade piscatória. Mas, ao lado
desta, subsiste a pesca artesanal como base da subsistência de pequenas
comunidades de pescadores que fazem ainda da pesca o seu modo de vida
porque foi esse o legado que lhes deixaram os seus antepassados. Os
pescadores, como referiu Platão, pertencem ao género de homens que andam
no mar! |