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»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


Homenagem aos pescadores que não temem o mar!

 

Carlos Gomes(*)

Como disse o sábio grego Platão, existem no mundo três espécies de homens: os vivos, os mortos e os que andam no mar. Essa verdade torna-se particularmente evidente quando, na praia, as mulheres aguardam ansiosas o regresso dos pescadores, trazendo consigo o peixe que há-de ser o seu sustento. Mas, sobretudo, o retorno com vida para junto dos seus. Não raras as vezes, as horas de espera angustiosa transformam-se em luto, dor e raiva porque o mar lhes roubou o marido, deixando viúvas e órfãos à mercê dos infortúnios da vida.

Face ao perigo que enfrenta e aos receios pelos riscos que corre, o pescador não pode temer o mar e sentir-se dominado pelo medo: ele tem de regressar ao mar. Caso contrário, aguarda-o a fome, a miséria e o desprezo dos restantes membros da comunidade. A tarefa não é fácil e alguns, revelando-se incapazes, acabam por afogar uma existência miserável no álcool, refugiando-se nas tabernas, vendo ao longe o bulício do cais e as embarcações zarpar.

A pescaria pode ser abundante mas, em casa do pescador, a mesa nunca é farta. Quando está mau tempo não podem trabalhar ou perdem redes. Existem alturas que o peixe que mal chega para custear o combustível do barco. E, quando apanham bastante peixe, este passa a valer pouco dinheiro… na lota, quais predadores à espera do cardume, os intermediários disputam ávidos pelo melhor preço que lhes vai permitir obter o maior lucro na transacção até chegar ao prato do consumidor!

A pesca é uma das actividades mais remotas do Homem representando, desde tempos imemoriais, um dos seus meios de subsistência. Entre os primitivos cristãos, adquiriu um significado tão especial que o peixe constituiu um dos seus primeiros símbolos. São inúmeras as passagens bíblicas que fazem alusão à pesca e aos pescadores. De resto, encontravam-se entre os apóstolos de Jesus Cristo alguns pescadores, tendo sido porventura Simão, chamado Pedro, o que ficou mais célebre por lhe ter sido confiada a missão de ser o primeiro a chefiar a Igreja.

Aos pescadores portugueses se deve em grande parte a histórica grandeza de Portugal porque foi também com base nos seus conhecimentos e experiência que se planearam e realizaram os Descobrimentos marítimos, da barca se fez caravela e das nossas praias se partiu para os quatro cantos do mundo. Não fora o mar e as suas gentes e jamais Portugal poderia ter permanecido como uma nação livre ao longo de mais de oito séculos de existência.

No seio da comunidade que somos todos nós – os portugueses – constituem os pescadores uma sociedade com o seu próprio modo de vida, a sua característica maneira de ser, os seus usos e costumes. A sua vida é feita junto à praia perto da qual habitam, observando diariamente o mar à distância sempre que não entra nele para ir pescar. Em regra, estabelecem entre si os mais estreitos laços de parentesco, estabelecendo uma genealogia que por vezes é representada através de símbolos, dos quais se destacam as famosas siglas poveiras. De norte a sul do país, entre as diferentes comunidades piscatórias, liga-as uma origem e um passado comum, a que não são alheias as medidas empreendidas ao longo de séculos para povoar o litoral e, desse modo, garantir a vigilância costeira e a sobrevivência das populações.

Foi ainda a preocupação em assegurar o sustento de uma população que, em resultado da revolução industrial, registava um notável crescimento demográfico, o que levou Portugal a virar-se de novo para o mar a partir dos finais do século XIX, tornando-se por impulso do Rei D. Carlos um dos países pioneiros na moderna investigação oceanográfica, o que veio abrir caminho à industrialização da actividade piscatória. Mas, ao lado desta, subsiste a pesca artesanal como base da subsistência de pequenas comunidades de pescadores que fazem ainda da pesca o seu modo de vida porque foi esse o legado que lhes deixaram os seus antepassados. Os pescadores, como referiu Platão, pertencem ao género de homens que andam no mar!

(*) Jornalista, Licenciado em História

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