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Em
geral, todos os grupos folclóricos afirmam representar os usos e
costumes das gentes da sua região a um tempo que remonta aos finais do
século XIX. Porém, na realidade, poucos são os que realmente o fazem,
sucedendo que a sua maioria inclui elementos temporalmente mais próximos
de nós, nomeadamente no traje, na
música, nas coreografias das
danças e
até os instrumentos musicais que utilizam são de origem bem mais
recente. Por conseguinte, esses grupos representam já uma época situada
algures em meados do século XX, na qual tais costumes há muito haviam
desaparecido do quotidiano do povo para serem transformados em cartaz de
turismo ou, quanto muito, em peça de museu a evocar vivências de um
tempo que não volta mais. |
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O
traje adquiriu novas formas por vezes mais estilizadas e perderam o
aspecto sóbrio que originalmente o caracterizava. Passou a incluir
botões e outros acessórios de plástico de invenção recente e as saias
tornaram-se mais curtas e rodadas de modo a permitir observar a
intimidade das moças, algo que seria impensável nos finais do século
XIX. Introduziram toda a sorte de fantasias no vestuário e, quase
sempre, o calçado é de fabrico actual. O chapéu braguês cedeu o lugar ao
chapéu à toureiro e as mulheres da Nazaré passaram a vestir mais saias
do que as que antes usavam. Tempos houve que as mulheres usavam
franjinha e cabelos curtos e os homens sapatos de verniz. As músicas nem
sempre são as originais mas arranjos feitos ao gosto popular ao tempo do
Estado Novo. E as coreografias frequentemente são inventadas quase ao
jeito do teatro de revista. A tal ponto que a mulher algarvia outrora
recatada passou da dançar o corridinho de forma assaz atrevida,
engalfinhada no seu par. Quanto aos
instrumentos musicais, quase
desapareceram a viola beiroa, a braguesa e a campaniça para dar lugar a
modelos que não são tradicionais, da mesma forma que o acordeão
substituiu a concertina e o harmónio. Isto para já não falar dos
instrumentos improvisados como as sarroncas e os zaquelitraques, as
pinhas e os seixos.
A
invenção da fotografia e do registo fonográfico permitiu-nos guardar
testemunhos das formas de vivência dos finais do século XIX,
constituindo por esse facto uma prova documental que, associado às peças
de vestuário e aos testemunhos deixados na imprensa da época e ainda
aqueles que foram sendo transmitidos ao longo das gerações mais
recentes, dão-nos a possibilidade de reconstituir os seus
usos e
costumes. Porém, as alterações que foram entretanto feitas acabaram por
na maior parte dos casos serem assumidas como genuínas, apenas porque em
lugar de investigarem com sentido crítico, os responsáveis dos grupos de
folclore limitam-se a reproduzir aquilo que anteriormente foi feito. E
assim se compreende as disputas que frequentemente ocorrem em torno da
origem de uma determinada música ou cantiga.
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