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(Continuação)
Com efeito, o associativismo popular começa por despontar nos meios
operários e burgueses dos maiores núcleos urbanos, alastrando-se
posteriormente para as cidades e vilas da província, à medida que
crescia a implantação dos ideais republicanos e a própria maçonaria
constituía as suas lojas e triângulos, recrutando para a sua causa as
elites locais. Não admira, pois, que as primeiras manifestações
organizadas do folclore português tenham servido para animar festas da
sociedade local ou instituições constituídas dentro do espírito
republicano.
O
jornal humorístico “O Sorvete”, na sua edição nº. 123 de 4 de
Setembro de 1892, dava conta da deslocação ao Porto de um “grupo de
lavradeiras de Ponte de Lima”, descrevendo-a nos seguintes termos:
"Graças á iniciativa dos generosos Bombeiros Voluntarios tiveram os
portuenses occasião de vêr com os seus proprios olhos o que é uma
esturdia no Minho. Lavradores e lavradeiras de puro sangue. Musica
genuina da aldeia; cantadores e cantadeiras de fina raça; danças e
cantares, tudo, enfim que o Minho tem. Lourenço, o director da musica,
tornou-se a figura mais saliente entre o seu grupo, pois que, ás
primeiras gaitadas adquiriu logo as simpatias do publico que o chamou
repetidas vezes e o cobriu de aplausos delirantes.
O sympathico Lourenço, quer na flauta, que toca bem - quer no sanguinho
de Nosso Senhor Jesus Christo - mostrou-se um bom beiço. Das raparigas:
a Thereza, a Rita e a Maria, muito alegres e folgazonas, as outras
tambem muito pandegas. E p'ra que viva Ponte do Lima!".
Algum
tempo decorrido, mais precisamente em 1904, era constituído o Rancho das
Lavradeiras de Carreço, em Viana do Castelo.
A
invenção da fotografia e das técnicas de gravação sonora constituíram,
entre outros aspectos, factores determinantes que possibilitaram a
preservação de memórias históricas entre as quais se incluem as de
natureza etnográfica. O espírito romântico associado à necessidade de
preservar a identidade cultural perante o crescimento de uma sociedade
moderna e industrial que ameaçava dissolver os costumes tradicionais
levou ao aparecimento de formas organizadas de salvaguarda de um
património cultural que corria o risco de desaparecer. O associativismo
então emergente como forma de participação cívica fez o resto. Não
admira, pois, que a generalidade dos grupos folclóricos actualmente
existentes reporte a sua representação aos finais do século XIX e
começos do século XX, beneficiando ainda da resistência dos materiais
que constituem a sua fonte documental, mormente as peças de vestuário
que exibem.
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