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(Continuação...)
No que respeita à
representação do folclore, podem definir-se duas linhas de actuação, a
saber:
1. A estilização.
2. A musealização
Embora não
inteiramente distintas entre si, convém destrinçar os seus principais
aspectos e características. A estilização traduz-se
essencialmente na introdução de modificações com vista a corrigir,
a aperfeiçoar e apurar do ponto de vista técnico a
representação do folclore de modo a torná-lo mais artístico. Esta
atitude não pretende preservar o folclore na sua originalidade,
conservando-lhe a rudeza e imperfeição que lhe é característica mas
antes, torná-lo requintado e sofisticado, mais ao gosto de determinadas
elites.
A estilização
foi a linha predominante da política do Estado Novo em relação ao
folclore. Curiosamente, a mesma que foi também seguida na extinta URSS e
demais países do leste europeu, onde aliás se promoveu a sua
profissionalização sob o controlo do Estado. E, assim, quais
profissionais do folclore, apresentam-se invariavelmente em palco de
forma impecável, rigorosamente maquilhadas e exibindo
permanentemente um sorriso postiço, sem deixar de presentear a
assistência com a sua inegável beleza e simpatia.
Por seu turno, a
musealização procura preservar o carácter genuíno do folclore,
cuidando que não tenha registado alterações que coloquem em causa a sua
autenticidade. Esta linha de actuação não entende o folclore numa
perspectiva actual porquanto o remete para uma época recuada no tempo a
qual não se vive mais – apenas se pode representar!
Nesta perspectiva, o
grupo folclórico constitui uma espécie de museu vivo cujo objecto
constitui precisamente conservar e divulgar um património que merece ser
preservado como peça museológica, apenas se distinguindo da função do
museu pelo seu carácter lúdico e a capacidade de reconstituir para além
de exibir. Na realidade, duas funções que se complementam entre si e que
ainda não foram suficientemente exploradas.
A intervenção
daqueles que se situam nesta linha de orientação incidem frequentemente
a sua crítica aos elementos que, em seu entender, constituem deturpações
ao próprio folclore. E, fazem-no, não raras as vezes, mencionando
aspectos de forma avulsa que, como tal, nem sempre são entendidas da
melhor forma pelos responsáveis dos grupos folclóricos ou seja, os seus
directores e ensaiadores.
Para além das duas
linhas dominantes, existem ainda uma terceira via que entende o folclore
e o traje tradicional numa perspectiva evolutiva, que não se detém com
as transformações sociais. Na realidade, tal atitude – designemo-la
evolutiva – aproxima-se mais da estilização na medida em que
aceita a modificação do elemento original por recusar a vê-lo como peça
de museu. É, aliás, o que explica a actual evolução do traje típico da
Nazaré, depois do Estado Novo ter feito a sua promoção turística e
influenciado o folclore local. Mas, perante o facto de o traje ter
deixado de ser confeccionado de forma artesanal e, por conseguinte, não
constituir mais o espelho do talento e da imaginação do povo, importa
saber até que ponto a actual versão do mesmo poderá ser considerado
genuíno ou uma mera imitação a servir propósitos comerciais e
turísticos.
Em conclusão, cabe
aos grupos folclóricos optarem pela preservação dos usos e costumes do
povo à época que dizem representar ou, pelo contrário, insistir na
produção um género de espectáculo cuja estética seria mais adequada à
sua exibição em salas do género do Molin Rouge, onde não faltam decerto
os melhores apreciadores dos talentos femininos. |