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(Continuação...)
Com o advento da I
República, passaram as exibições do folclore a ser aproveitadas no
contexto das “paradas agrícolas” de onde se derivaram os chamados
“cortejos etnográficos”, exposições industriais e ainda nos
congressos regionalistas que à época se realizaram já então com o
propósito de debaterem a criação de regiões administrativas –
províncias – em substituição da circunscrição distrital herdada da
monarquia constitucional e que ainda vigora.
Em relação aos trajes
tradicionais, passou o seu uso a ser incentivado junto dos meios
burgueses da capital como máscara de Carnaval, havendo uma especial
preferência pelos trajes minhotos com que se vestiam as crianças. Com
esse propósito, promoviam-se concursos e bailes de mascarados nas
colectividades de cultura e recreio, incluindo nas casas regionais que
entretanto foram aparecendo, inicialmente frequentadas por uma espécie
de elite que, apesar de migrada, ainda dispunha de tempos livres e meios
para poder consumir, o que não sucedia com os seus conterrâneos sujeitos
a uma vida miserável de escravidão.
A vulgarização do uso
do traje regional como máscara carnavalesca teve sobretudo a ver com a
necessidade de suprimir o incómodo xe-xé, zombando de tudo e de
todos, figura brutal que em tudo desagradava aos políticos e à burguesia
citadina que não lhe poupavam o seu atrevimento jocoso e a crítica
mordaz.
Porém, havia de ser o
Estado Novo, designação pela qual se tornou conhecida a II República,
aquele que maior atenção prestou às coisas do folclore. Contudo, não
constituiu seu propósito identificá-lo e preservá-lo da mesma forma como
actualmente o entendemos, apesar de ter existido uma forte tendência com
vista à sua musealização. Procurou antes, como aliás era próprio da
época a outras latitudes, aproveitá-lo para os seus propósitos
propagandísticos, quer na divulgação das potencialidades turísticas que
o país oferecia, no contexto de uma indústria então nascente, como ainda
na educação do povo nos valores pátrios e comunhão com a sua própria
identidade.
A partir de meados do
século passado, os “ranchos folclóricos” multiplicaram sobretudo através
da organização das “casas do povo”. Para tal, o Estado Novo
utilizou os serviços do Ministério da Educação Nacional, o Secretariado
da Propaganda Nacional, a Mocidade Portuguesa, a Junta Central das Casas
do Povo, a influência dos governadores civis e ainda a acção da Fundação
Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Organizou feitas e
concursos. E, através de intelectuais de renome identificados com o
regime, apurou as músicas, alterou e inventou coreografias, modificou os
adornos dos trajes e introduziu uma vertente mais técnica e
artística à sua representação. Em resumo, por mais bem intencionada
que tivesse sido a sua intervenção neste domínio, os responsáveis pelo
Estado Novo acabaram por produzir estragos irreparáveis ao folclore.
Por falta de pesquisa
e método de análise, a maior parte das pessoas passou a dar como genuíno
aquilo que não é mais do que uma versão estereotipada produzida pelo
Estado Novo. E assumem-no com tal convicção que passou a constar dos
seus próprios critérios de avaliação. E, no entanto, são visíveis em
quase todas as coreografias e não só, as marcas deixadas pela
intervenção que foi feita, quando não se trata mesmo de puras invenções.
O mesmo se verifica com o traje, os instrumentos que são utilizados, as
músicas e letras que compõem o reportório e os moldes em que decorre a
própria apresentação. De resto, é notória a insistência em mencionar os
prémios alcançados, os concursos em que participaram, as
organizações em que se filiam e os países que percorreram em digressão
em vez que descreverem aquilo que realmente interessa ao público e que
consiste naquilo que vão representar.
Paradoxalmente, o
preconceito com que actualmente o folclore do povo português é encarado,
mesmo em relação ao folclore de outros países, não impediu o actual
regime político de ter recuperado a Fundação Nacional para a Alegria no
Trabalho (FNAT), alterando a sua designação para Instituto Nacional para
o Aproveitamento dos Tampos Livres dos Trabalhadores (INATEL), apesar de
à partida ter sido constituída à semelhança da sua congénere italiana
Opera Nazionale Dopolavoro. E, justiça seja feita, aquela
organização continua a manter um departamento para o Folclore, para além
de numerosas iniciativas do maior interesse na valorização cultural e na
ocupação dos tempos livres dos trabalhadores e da população em geral. E,
isso é tanto mais importante quando porventura nunca foi tão necessário
manter a alegria no trabalho! |