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No Centenário da Implantação da República

Folclore e Política - As Políticas do Folclore
 

 

Carlos Gomes(*)

Nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974, existiu um “grupo de danças” que então apresentava coreografias assaz curiosas, alegadamente baseadas no folclore minhoto. Entre outras bizarrias, dançavam uma chula na qual, os dançarinos, empunhavam foices e martelos, estilizados, construídos em madeira e, à medida que volteavam, faziam sobrepô-los numa clara alusão ao símbolo mundialmente adoptado por todas as organizações comunistas e a própria URSS, desde os tempos da chamada “social-democracia revolucionária”. Pretendiam, dessa forma, transmitir a sua ideologia assente na “aliança entre operários e camponeses”, idealizada por Karl Marx e Friedrich Engels no seu “Manifesto Comunista” como forma de atingir uma sociedade socialista.

Tal como sucedia em relação às coreografias, também os trajes eram estilizados a partir de uma versão dos trajes domingueiros minhotos, já de si adulterados. As saias das moças não iam além de duas barras de cor vermelha e amarela, sobrepostas num pano escuro. Tratava-se, como se pode adivinhar, de um “grupo de danças” que, em complemento com outras iniciativas do género, se inseria numa estratégia de propaganda que era então desenvolvida por um pequeno partido de inspiração maoísta. Esses tempos ainda são recordados por algumas pessoas que os viveram, incluindo alguns dos seus componentes e o próprio ensaiador que ainda se mantêm nestas lides.

Para além de algumas tentativas esporádicas de utilização do folclore para fins políticos, esta limita-se na maior parte das vezes à sua participação em manifestações de carácter político e sindical, com especial preferência para os grupos de zé-pereiras devido ao troar dos seus bombos. A razão do desinteresse que a actual classe política manifesta em relação ao folclore prende-se directamente com a utilização que lhe foi dada ao tempo do Estado Novo, associando-a aos chamados “três efes” que supostamente constituíam a sua trilogia – Fado, Folclore e Fátima – e como tal consideradas “formas de alienação do povo”. Apesar de, ironicamente, algumas dessas “formas de alienação” terem adquirido maior relevo nos tempos actuais, como sucede com o futebol cujos jogos passaram a realizar-se indiscriminadamente em qualquer dia da semana e a sua discussão a dominar quase todos os momentos da vida das pessoas.

E, reveladora do desprezo a que o folclore do povo português é votado pelo actual regime político, é notória a sua omissão dos grandes eventos culturais e da programação televisiva na estação oficial, bem assim a forma pejorativa com que frequentemente o termo folclore é utilizada.

O folclore ou melhor, a sua representação através de grupos folclóricos propositadamente constituídos para esse fim, remonta aos finais do século XIX quando um “grupo de lavradeiras de Ponte de Lima” se deslocou ao Porto, a convite dos bombeiros portuenses, conforme nos dá conta o jornal humorístico “O Sorvete”, na sua edição nº. 123, de 4 de Setembro de 1892. Doze anos depois, foi constituído o Rancho das Lavradeiras de Carreço, em Viana do Castelo. O seu aparecimento não foi certamente alheio ao espírito cívico que então se manifestava através da criação de inúmeras associações com as mais diversas finalidades e jornais locais, a maior parte das vezes inspirada na propaganda republicana quando não mesmo obra sua, levada a cabo através das lojas maçónicas então constituídas. De resto, apesar do claro predomínio dos sectores monárquicos e católicos na maior parte do país, caracterizado ainda por uma sociedade marcadamente rural, os republicanos dispunham a sua base de apoio numa burguesia fixada nos meios urbanos, inclusive nas pequenas cidades da província. A até aí entendia a Maçonaria a sua organização, como sucedeu com o Grande Oriente Passos Manuel, mais conhecido por “Maçonaria do Norte”, que integrou nomeadamente a Loja “Fraternidade” de Viana do Castelo e o Triângulo nº. 28, de Ponte de Lima.

(*) Jornalista, Licenciado em História


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