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»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


Folclore e Migrações Internas

 

Carlos Gomes(*)

As migrações das gentes do interior para os centros urbanos constitui um fenómeno das sociedades modernas, consequência directa da industrialização dos meios de produção, tendo as mesmas início no nosso país a partir de meados do século passado, mais precisamente no período denominado por "fontismo". Desde então, o êxodo a partir dos campos para as cidades não mais cessou, com verdadeiras legiões de camponeses a engrossar incessantemente as classes trabalhadoras da cidade e, à medida em que estas cresceram e foram progressivamente sendo ocupadas pelo sector terciário do comércio e serviços, também apareceram os "dormitórios" suburbanos que fizeram crescer desmesuradamente as respectivas periferias.

Este fenómeno teve como consequência directa o desenraizamento cultural de parte da população e ainda uma relativa perda de contacto com a natureza, aspecto considerado fundamental para o bem estar psicológico e emocional da pessoa humana. Paradoxalmente, numa primeira fase a cidade representava qualidade de vida para os seus habitantes, sobretudo se tivermos em consideração o atraso económico, social e cultural em que então viviam as populações dos meios rurais.

Entretanto, os economistas passaram a encarar a diminuição da população na agricultura como um claro sinal de desenvolvimento uma vez que, confundindo causa e efeito, as estatísticas indicam que é nos países económicamente mais desenvolvidos que se registra uma menor taxa de ocupação de mão-de-obra no sector primário ou seja, na agricultura, na pesca e nas indústrias extractivas, ao contrário do que sucede nos países sub-desenvolvidos. Esta ideia errónea é precisamente a que tem sido seguida nomeadamente na definição da chamada "reforma da política agrícola comun" da União Europeia a qual, assumida com tal ligeireza mais não tem conseguido do que despovoar os meios rurais em detrimento de um progresso equilibrado e sustentado que tenha em consideração o bem estar do ser humano, pois só nessa perspectiva faz algum sentido o desenvolvimento económico. De nada valem as visitas esporádicas e ocasionais sem consequências práticas dos chefes de estado e de governo a localidades isoladas no interior, como a efectuada pelo Presidente da República à aldeia do Soajo onde foi inaugurar. um elevador de palha !!!

De norte a sul, a região de Lisboa tem ao longo dos anos recebido gentes oriundas das mais diversas regiões do nosso país. Os minhotos vieram trabalhar na hotelaria e na construção civil, trazendo consigo a concertina que os alegra em momentos de são convívio. Mas há ainda os beirões e os transmontanos, os algarvios e os açoreanos. Existem também os alentejanos que formam uma imensa colónia e não perdem ocasião para cantarem as suas modinhas. E, em Vila Franca de Xira, com os pés dentro de água e as suas casas construídas em palafita, a colónia de avieiros imortalizada pelo escritor Alves Redol, gente que tem a sua origem e os seus costumes ligados a Vieira de Leiria.

De acordo com os pareceres habitualmente emitidos pelos "técnicos" do folclore, os grupos devem sediar-se na respectiva região que procuram representar - os minhotos no Minho, os alentejanos no Alentejo -, não devendo serem reconhecidos os que tal princípio não observarem. Seguindo esse raciocínio que reflecte uma visão estática da sociedade, os avieiros deveriam dançar o fandango e trajar de campino apenas porque passaram a viver no Ribatejo. De igual modo, os minhotos que vivem na periferia de Lisboa deveriam trocar o vira e a chula pelos costumes saloios. E os alentejanos que foram viver para o Algarve teriam de esquecer o seu cante bem característico e dolente para passar a dançar o corridinho algarvio .

Enfim, coisas que só lembram aos "técnicos”! Ora, sucede precisamente que as gentes que migraram das zonas rurais para as cidades agruparam-se na maior parte dos casos em associações de carácter regionalista com o objectivo de manterem os seus laços de convívio e preservarem as respectivas tradições. A maior parte dessas entidades encontra-se sediada em Lisboa e no Porto, existindo porém noutras localidades do país. Com maior ou menor êxito, algumas delas constituíram os seus grupos folclóricos, contribuindo desse modo para que as suas gentes não esqueçam a sua verdadeira identidade. Naturalmente, revelando numerosas deficiências a que necessariamente não é alheio o desinteresse a que são votados por parte daqueles que dizem representar o folclore português.

Sucede que, os referidos grupos não são reconhecidos precisamente porque não se encontram sediados nas respectivas regiões de origem - ou não interpretam o folclore da região onde se encontram sediados!

(*) Jornalista, Licenciado em História


 

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