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Quando há quinhentos anos ou, para ser mais preciso, um século antes, os
portugueses iniciaram a sua epopeia marítima, estavam ainda longe de
pensar que os povos com quem iriam contactar viriam um dia a exprimir no
seu folclore indígena inúmeras manifestações do nosso folclore. Tal foi
o que sucedeu a título de exemplo na Malásia e em África, na Índia, no
Brasil e nas ilhas que actualmente integram a Indonésia. É que, durante
tão prolongadas viagens e permanência em todas essas paragens pelo mundo
fora, os nossos marinheiros que seguiram nas caravelas não tinham nos
momentos de ócio outra forma de divertimento para além da que
efectivamente conheciam ou seja, cantar e dançar como sabiam e era
costume nas suas terras de origem, os jogos que praticavam, as festas
que realizavam e que lhes deixava saudades, esse sentimento bem
português que também os fazia em noites de luar soltar gemidos pungentes
das guitarras que consigo levavam, entoando versos que mais não eram do
que lamentos à sorte do destino e ao fado da sua vida.
Capitaneada por cavaleiros feitos navegadores, a tripulação que seguia
em tais expedições era geralmente constituída por gente simples do povo
arrancada aos trabalhos da lavoura ou à faina da pesca, ou então
recrutada à força entre a vadiagem que grassava nas ruas de Lisboa.
Consigo levavam a uma fé cristã cujos ensinamentos receberam desde o
berço e um modo de ser temperado que hoje ainda nos caracteriza e a que
naturalmente não é alheio o nosso clima ameno. O mar os tornou ousados e
corajosos, duros e ainda mais tementes a Deus, agrestes e dóceis. Onde
chegaram transmitiram a sua fé e as suas crenças, deram a conhecer os
seus hábitos e as suas tradições, amaram e travaram batalhas, negociaram
e invariavelmente deixaram um pedaço de si mesmos, da sua alma e do seu
humanismo. Entre aquilo que levaram na bagagem - e também trouxeram -
salientamos o seu folclore, o seu modo de pensar, as suas lendas e
provérbios, a sua alimentação, a sua religiosidade. E, sempre que
entraram em contacto com os povos nativos, transmitiram-lhes o que
sabiam e aprenderam tudo o que lhes mostraram e lhes aguçava a
curiosidade, misturando culturas como miscigenaram raças. E eis que da
combinação da alimentação ocidental que não dispensa a carne de porco
com as especiarias indianas inventaram o sarapatel goês, um paladar que
diz bem da forma peculiar da colonização portuguesa. E surgiu ainda o
crioulo e a cachopa, as mornas e o lundum, o patoá e a mulata que
representa a beleza e alegria do carnaval brasileiro.
Em São Tomé e Príncipe encontramos uma réplica extraordinariamente
semelhante ao Auto da Turquia que em Ponte de Lima tem lugar, levado a
terreiro pelo povo da freguesia de São João da Ribeira e representando
uma batalha travada entre turcos e cristãos. Em Goa ainda se dança o
corridinho, embora com um ritmo ligeiramente alterado e, tanto na
Malásia como no Havai ainda são evidentes as influências do nosso
folclore. No Brasil dança-se o bumba meu boi, as quadrilhas e
celebram-se as juninas e as reisadas e na Indonésia algumas formas de
cantar que são claro testemunho da herança portuguesa em Java, Solor e
Flores nomeadamente. E, até na "costa dos piratas" como outrora era
designado os actuais Emirados Árabes Unidos são muito disputadas umas
lutas em tudo semelhantes às tradicionais chegas de bois no Barroso.
Importa, pois, encararmos o folclore como uma realidade dinâmica que
influência e é influenciado pela comunicação entre os povos, o contacto
das suas experiências e realidades, a partilha de conhecimentos e
saberes. E, tendo em vista o percurso histórico dos portugueses e a sua
proverbial tolerância, o nosso folclore registrou naturalmente maior
nível de interpenetração noutras culturas dos povos com quem contactámos
ao longo da história do que o folclore de qualquer outro povo europeu.
É
a nossa condição de povo predestinado a erguer uma nova civilização
baseada no respeito mútuo e no direito à diferença que há de aproximar
os povos. |