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»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


O Folclore nas Descobertas

 

Carlos Gomes(*)

Quando há quinhentos anos ou, para ser mais preciso, um século antes, os portugueses iniciaram a sua epopeia marítima, estavam ainda longe de pensar que os povos com quem iriam contactar viriam um dia a exprimir no seu folclore indígena inúmeras manifestações do nosso folclore. Tal foi o que sucedeu a título de exemplo na Malásia e em África, na Índia, no Brasil e nas ilhas que actualmente integram a Indonésia. É que, durante tão prolongadas viagens e permanência em todas essas paragens pelo mundo fora, os nossos marinheiros que seguiram nas caravelas não tinham nos momentos de ócio outra forma de divertimento para além da que efectivamente conheciam ou seja, cantar e dançar como sabiam e era costume nas suas terras de origem, os jogos que praticavam, as festas que realizavam e que lhes deixava saudades, esse sentimento bem português que também os fazia em noites de luar soltar gemidos pungentes das guitarras que consigo levavam, entoando versos que mais não eram do que lamentos à sorte do destino e ao fado da sua vida.

Capitaneada por cavaleiros feitos navegadores, a tripulação que seguia em tais expedições era geralmente constituída por gente simples do povo arrancada aos trabalhos da lavoura ou à faina da pesca, ou então recrutada à força entre a vadiagem que grassava nas ruas de Lisboa. Consigo levavam a uma fé cristã cujos ensinamentos receberam desde o berço e um modo de ser temperado que hoje ainda nos caracteriza e a que naturalmente não é alheio o nosso clima ameno. O mar os tornou ousados e corajosos, duros e ainda mais tementes a Deus, agrestes e dóceis. Onde chegaram transmitiram a sua fé e as suas crenças, deram a conhecer os seus hábitos e as suas tradições, amaram e travaram batalhas, negociaram e invariavelmente deixaram um pedaço de si mesmos, da sua alma e do seu humanismo. Entre aquilo que levaram na bagagem - e também trouxeram - salientamos o seu folclore, o seu modo de pensar, as suas lendas e provérbios, a sua alimentação, a sua religiosidade. E, sempre que entraram em contacto com os povos nativos, transmitiram-lhes o que sabiam e aprenderam tudo o que lhes mostraram e lhes aguçava a curiosidade, misturando culturas como miscigenaram raças. E eis que da combinação da alimentação ocidental que não dispensa a carne de porco com as especiarias indianas inventaram o sarapatel goês, um paladar que diz bem da forma peculiar da colonização portuguesa. E surgiu ainda o crioulo e a cachopa, as mornas e o lundum, o patoá e a mulata que representa a beleza e alegria do carnaval brasileiro.

Em São Tomé e Príncipe encontramos uma réplica extraordinariamente semelhante ao Auto da Turquia que em Ponte de Lima tem lugar, levado a terreiro pelo povo da freguesia de São João da Ribeira e representando uma batalha travada entre turcos e cristãos. Em Goa ainda se dança o corridinho, embora com um ritmo ligeiramente alterado e, tanto na Malásia como no Havai ainda são evidentes as influências do nosso folclore. No Brasil dança-se o bumba meu boi, as quadrilhas e celebram-se as juninas e as reisadas e na Indonésia algumas formas de cantar que são claro testemunho da herança portuguesa em Java, Solor e Flores nomeadamente. E, até na "costa dos piratas" como outrora era designado os actuais Emirados Árabes Unidos são muito disputadas umas lutas em tudo semelhantes às tradicionais chegas de bois no Barroso.

Importa, pois, encararmos o folclore como uma realidade dinâmica que influência e é influenciado pela comunicação entre os povos, o contacto das suas experiências e realidades, a partilha de conhecimentos e saberes. E, tendo em vista o percurso histórico dos portugueses e a sua proverbial tolerância, o nosso folclore registrou naturalmente maior nível de interpenetração noutras culturas dos povos com quem contactámos ao longo da história do que o folclore de qualquer outro povo europeu.

É a nossa condição de povo predestinado a erguer uma nova civilização baseada no respeito mútuo e no direito à diferença que há de aproximar os povos.

(*) Jornalista, Licenciado em História
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