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(Continuação...)
A partir de então, o folclore ficou
etiquetado e arrumado em gavetas que correspondem a uma divisão
administrativa em províncias que foi ensaiada pelo Estado Novo mas que,
na realidade, não passou de umas manchas coloridas no mapa de Portugal.
Um pequeno punhado de ranchos de diversos pontos do país foi escolhido e
especialmente apadrinhado para representar as respectivas províncias, o
mesmo sucedendo com o artesanato, os trajes tradicionais e as próprias
festas e romarias, como se a cultura tradicional das diferentes regiões
assentasse num único padrão e, entre elas não existissem cambiantes de
luz e cor e as pessoas não se influenciassem mutuamente no contacto
entre si, na feira, no trabalho ou na romaria e as migrações internas
fossem algo inexistente.
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Quem assiste ao cortejo etnográfico que se
realiza em Viana do Castelo por ocasião das
Festas em Honra de Nossa
Senhora da Agonia tem a probabilidade de deparar com a participação no
referido desfile de algumas unidades industriais como os Estaleiros
Navais de Viana do Castelo. Sucede que, não se tratando propriamente de
uma representação etnográfica, a mesma só poderá resultar de uma certa
inspiração no figurino da “Festa do Trabalho” que outrora ali tinha
lugar.
Nos tempos mais recentes, um tanto com base
em modelos importados sobretudo dos antigos países socialistas, algumas
localidades organizam geralmente por ocasião do respectivo feriado
municipal um desfile daquilo a que costumam designar por “forças
vivas” e que incluem indiscriminadamente e sem quaisquer
preocupações de ordem estética, ranchos folclóricos, bandas de música,
fanfarras dos bombeiros, colectividades desportivas, entidades fabris e
toda a espécie de agremiações. Em lugar dos tradicionais arcos
decorativos, as artérias que constituem o seu percurso são
frequentemente engalanadas com bandeiras de cores variadas e formatos
reduzidos, um género também ele originário daqueles países. Não se
trata, pois, de um desfile etnográfico mas antes de uma manifestação
política ao jeito municipalista ao qual os ranchos folclóricos emprestam
o seu colorido e animação com o toque das suas gaitas.
Em síntese, o cortejo etnográfico representa
um género de espectáculo que teve a sua origem como meio de propaganda
com a finalidade de promover os produtos e actividades regionais,
evoluindo para novas formas de acordo com as transformações sociais e
políticas que entretanto se foram registando na sociedade portuguesa.
Porém, continua a ser uma das componentes mais apreciadas do público
sempre que as mesmas surgem integradas nas festividades, apresentando
quadros animados e coloridos das tradições locais. |