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Ourém: as influências no Folclore numa região de transição

 

Carlos Gomes(*)

Em torno do velho burgo medieval onde repousam os restos mortais de D. Afonso, IV Conde de Ourém e primogénito da Casa de Bragança, estendem-se os vastos solos agrícolas e florestais do Concelho de Ourém desde as margens do rio Nabão e os limites do Concelho de Pombal ao maciço calcário estremenho onde em Fátima se ergue o magnífico Santuário aonde acorrem peregrinos de todo o mundo e de todas as crenças.

Em termos geográficos e tomando como referência as divisões convencionadas, Ourém situa-se numa zona de transição entre a Estremadura, o Ribatejo e a Beira Litoral. Pertencendo embora ao Distrito de Santarém, encontra-se encravado entre municípios que pertencem ao Distrito de Leiria e é com esta cidade que sempre realizou a maior parte da sua actividade económica. Porém, nos tempos mais difíceis, antes da emigração para França, as suas gentes partiam em ranchos para as searas do Ribatejo onde muitas vezes permaneciam semanas a fio. E, não foram poucos os que por lá ficaram e construíram uma nova vida.

Dentro dos limites do próprio Concelho de Ourém, as características geológicas e a fisionomia da terra marca a própria identidade. A norte, os solos areníticos e as temperaturas elevadas adequam-se à produção do palhete, o conceituado vinho medieval cuja cultura foi introduzida na região pelos frades de Alcobaça. A sul, a aspereza rochosa da montanha tornam a vida do agricultor mais penosa e apenas propícia à pastorícia de gado caprino. Entre uma e outra ficam as veigas férteis do Olival e da Conceição onde cresce o milho e a água é suficiente para mover as pás das azenhas.

Também o folclore local regista todas estas influências características de uma zona de transição. Claramente estremenho, aqui e acolá denuncia as influências do Ribatejo e da Beira Litoral, nos trajes e nos cantares, nos ritmos e nas coreografias. Por vezes, as diferenças são tão evidentes que chegamos a pensar que estamos perante agrupamentos folclóricos de regiões distintas, tal a influência que recebem das regiões em seu redor.

Para quem está habituado a identificar o folclore por rótulos de acordo com um velho mapa que apresenta uma divisão administrativa assente em províncias, a qual efectivamente nunca chegou a concretizar-se, dificilmente entenderá porque em determinadas regiões do país se cruzam costumes tão diversos e se registam influências díspares como se não fizessem parte de província alguma. Sucede que, a não ser que existam barreiras físicas ou políticas intransponíveis a inviabilizar o contacto entre os povos, estes sempre tiveram por costume encontrar-se na feira ou na romaria e, desse contacto, adquirem modas alheias que levam consigo e acabam por tomá-las como suas. E esta realidade é particularmente evidente numa região de transição como sucede com o Concelho de Ourém.

(*) Jornalista, Licenciado em História


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