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Em torno do velho burgo medieval onde repousam os restos mortais de D.
Afonso, IV Conde de Ourém e primogénito da Casa de Bragança, estendem-se
os vastos solos agrícolas e florestais do Concelho de Ourém desde as
margens do rio Nabão e os limites do Concelho de Pombal ao maciço
calcário estremenho onde em Fátima se ergue o magnífico Santuário aonde
acorrem peregrinos de todo o mundo e de todas as crenças.
Em termos geográficos e tomando como referência as divisões
convencionadas, Ourém situa-se numa zona de transição entre a
Estremadura, o
Ribatejo e a
Beira Litoral. Pertencendo embora ao
Distrito de Santarém, encontra-se encravado entre municípios que
pertencem ao Distrito de Leiria e é com esta cidade que sempre realizou
a maior parte da sua actividade económica. Porém, nos tempos mais
difíceis, antes da emigração para França, as suas gentes partiam em
ranchos para as searas do Ribatejo onde muitas vezes permaneciam semanas
a fio. E, não foram poucos os que por lá ficaram e construíram uma nova
vida.
Dentro dos limites do próprio Concelho de Ourém, as características
geológicas e a fisionomia da terra marca a própria identidade. A norte,
os solos areníticos e as temperaturas elevadas adequam-se à produção do
palhete, o conceituado vinho medieval cuja cultura foi introduzida na
região pelos frades de Alcobaça. A sul, a aspereza rochosa da montanha
tornam a vida do agricultor mais penosa e apenas propícia à pastorícia
de gado caprino. Entre uma e outra ficam as veigas férteis do Olival e
da Conceição onde cresce o milho e a água é suficiente para mover as pás
das azenhas.
Também o folclore local regista todas estas influências características
de uma zona de transição. Claramente estremenho, aqui e acolá denuncia
as influências do Ribatejo e da Beira Litoral, nos
trajes e nos
cantares, nos ritmos e nas coreografias. Por vezes, as diferenças são
tão evidentes que chegamos a pensar que estamos perante agrupamentos
folclóricos de regiões distintas, tal a influência que recebem das
regiões em seu redor.
Para quem está habituado a identificar o folclore por rótulos de acordo
com um velho mapa que apresenta uma divisão administrativa assente em
províncias, a qual efectivamente nunca chegou a concretizar-se,
dificilmente entenderá porque em determinadas regiões do país se cruzam
costumes tão diversos e se registam influências díspares como se não
fizessem parte de província alguma. Sucede que, a não ser que existam
barreiras físicas ou políticas intransponíveis a inviabilizar o contacto
entre os povos, estes sempre tiveram por costume encontrar-se na feira
ou na romaria e, desse contacto, adquirem modas alheias que levam
consigo e acabam por tomá-las como suas. E esta realidade é
particularmente evidente numa região de transição como sucede com o
Concelho de Ourém. |