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(Continuação...)
A exagerada
preocupação com a vertente do espectáculo leva a que se procure o
elemento vistoso em detrimento do genuíno, facto que leva alguns grupos
a alterar os ritmos das suas danças originais e a introduzir algumas
modificações nos trajes com vista a produzir algum erotismo na exibição
para regalo da vista dos espectadores e diversão dos fotógrafos de
upskirt. Ou ainda a juntar pompons vermelhos às castanholas, fazendo
dos bailadores minhotos uma espécie de majoretes.
Pese embora a enorme
diversidade de adulterações a que o folclore é sujeito, não há rancho
folclórico que surpreendentemente não reclame a autenticidade daquilo
que representa e não se considere o mais genuíno e aquele que
alegadamente melhor representa os usos e costumes da sua própria região.
Associado ao folclore
existe ainda um certo profissionalismo, não em relação à forma como o
folclore é representado mas quanto à forma como é exercido por parte de
alguns dos que a ele estão ligados. Enquanto milhares de pessoas dedicam
muito do seu tempo procurando representar as nossas tradições,
sacrificando, não raras as vezes, o seu descanso pessoal e até
contribuindo materialmente para minimizar os encargos dos grupos de que
fazem parte, existem alguns ensaiadores e tocadores que fazem do
folclore um meio de tirar dividendos, obrigando os respectivos ranchos
ao pagamento de ordenados sob pena de não disporem da sua participação.
Mas, a
profissionalização do folclore não se fica pelos ensaiadores e
tocadores, especialmente de acordeão e concertina. Ela estende-se aos
próprios grupos como tal constituídos, pois alguns existem que apenas
actuam mediante o pagamento de um avultado caché, recusando o
estabelecimento de permutas ou qualquer outra forma de compensação. Sem
pretender discriminar, apenas se adianta que se tratam geralmente de
ranchos folclóricos que um dia vestiram o figurino do Estado Novo e
actualmente ostentam o “certificado de garantia” que as suas
filiações proporcionam.
E, como aos
empresários do folclore não falta imaginação, existem ainda grupos
com reduzido número de pares e à dimensão adequada para viajar a coberto
de patrocínios ou actuar para turistas em hotéis, navios de cruzeiro e
casas típicas entre outros contratos remuneráveis. Resta saber, no meio
disto tudo, que lugar fica reservado para o folclore.
Em face de tais
circunstâncias, não se vislumbra a grande possibilidade da maioria dos
ranchos folclóricos poder vir a realizar um trabalho sério na divulgação
dos usos e costumes do povo português. Antes pelo contrário, continuará
a verificar-se o maior interesse em caracterizá-lo pela fantasia com a
exclusiva preocupação de o manter tão atraente quanto possível de modo a
que seja rentável para alguns, à custa do sacrifício da maioria dos seus
componentes. Importa que, à maneira da divisão administrativa que foi
ensaiada pelo Estado Novo, o folclore continue a ficar arrumadinho em
províncias, como se de gavetas se tratassem e, entre elas, não
existissem regiões de transição ou mesmo nela não houvesse diversidade.
Mais ainda, como se o chamado Douro Litoral não constituísse com o
Minho
o mesmo espaço geo-etnográfico, Lamego não fosse duriense ou o Salto, no
Concelho de Montalegre, deixasse de ser minhoto apenas porque deixou de
pertencer a Cabeceiras de Basto. E, por fim, em que gaveta colocar o
folclore da região de Ourém, situada na confluência do
Ribatejo, da
Beira Litoral e da Alta
Estremadura.
Ao folclore, tal como
é actualmente apresentado ao consumidor, apenas interessa o que é
facilmente identificável, atraente e vistoso porque não é a sua
preservação que se procura atingir mas a sua utilização como uma
mercadoria sujeita às leis do mercado e, como tal, carecendo um embrulho
de fantasia e de um marketing próprio que o leve a ser consumido. Tal
como a industrialização dos finais do século XIX fez desaparecer as
velhas usanças levando à emergência dos
ranchos folclóricos com vista à
sua musealização como forma de preservação da memória, a sociedade de
consumo tende a transformar o folclore em mercadoria e a facilitar a sua
profissionalização. |