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»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


O Folclore virou mercadoria da sociedade de consumo
 

 

Carlos Gomes(*)

Mais do que uma forma de representação das nossas tradições populares, o folclore tem vindo cada vez mais a transformar-se numa mercadoria e a proporcionar o aparecimento de novas profissões a ele associadas, com especial incidência para as que se relacionam com a actividade dos ensaiadores, dos tocadores e dos próprios empresários do folclore, ou seja, aqueles que dirigem os respectivos grupos e fazem a gestão dos seus contratos.

Com efeito, a representação etnográfica tem vindo a levantar problemas cada vez maiores que, dadas as circunstâncias, nos levam a questionar se ainda valerá a pena falar de autenticidade e acreditar na possibilidade de um trabalho sério por parte dos ranchos folclóricos. Se tempos houve em que estes vestiram o figurino do Estado Novo, a verdade é que não apenas conservam o modelo que então lhes foi imposto como ainda inventaram novos figurinos, qual deles o mais ridículo, todos contribuindo invariavelmente para o descrédito do folclore. E todos os apelos e recomendações com vista à correcção de determinados aspectos considerados estranhos à essência do folclore resvalam, invariavelmente, na indiferença dos responsáveis da maioria dos grupos folclóricos, o que deverá certamente ter uma explicação.

Não existe a menor preocupação de recolha no terreno, do estudo dos materiais antigos como fotografias, peças de vestuário, partituras e alfaias que, nomeadamente, se encontram à guarda de museus e outras entidades. Pior ainda, falta o conhecimento e a compreensão da evolução social, a História dos usos e costumes em função das transformações tecnológicas e das mudanças de mentalidade, dos comportamentos humanos, das maneiras de vestir e da evolução dos materiais. Em contrapartida, a maioria dos responsáveis dos ranchos folclóricos limita-se a copiar algo que viu antes, quase sempre sem questionar acerca da sua validade. E quando pretende introduzir algo que possa constituir uma marca distintiva, fá-lo, geralmente, sem critérios válidos.

Alguns grupos ditos folclóricos têm vindo a incluir personagens cujo interesse do ponto de vista etnográfico é bastante questionável, como sucede com o pároco de aldeia ou a figura de um fidalgo tomado isoladamente, apenas porque alguém reconstituiu um fato que particularmente utilizou, sem demonstração da sua representatividade por parte de um grupo social. Outros existem que incluem operários fabris na sua representação, alegadamente etnográfica, ignorando que o aparecimento dos ranchos folclóricos veio responder a uma necessidade de preservação da cultura tradicional em relação à qual a sociedade moderna industrializada representa uma ameaça. Foi precisamente a fábrica que veio uniformizar os costumes e a forma de vestir dos trabalhadores rurais que nela ingressaram da mesma forma que o ruído das máquinas sufocou os cantares que antes o acompanhavam livremente nos trabalhos da lavoura. Por este andar, não tardará que tais grupos venham a incluir outros grupos profissionais como o polícia e o técnico de informática, transportando consigo as suas próprias alfaias

Sucede que, do espírito fantasioso que noutras épocas levou à modificação dos trajes tradicionais, incorporando-lhe elementos estranhos e cortes mais ao gosto da revista à portuguesa, agora se acrescenta o espírito imaginativo que leva a reinventar o folclore, procurando fugir à rotina e torná-lo ainda mais atraente. E, o que ainda mais surpreendente, quanto mais fantasioso e ridículo mais é apresentado como genuíno!

Mas a criatividade dos nossos folcloristas não se limita às personagens que os seus componentes procuram representar nem aos seus trajes fantasiosos – ela estende-se às coreografias das suas danças e até às pretensas representações etnográficas. Quais desfiles de modelos, algumas coreografias mais não parecem do que cópias de actuações das coristas do teatro de revista em palco ou na passerele enquanto as ditas representações frequentemente se assemelham a rábulas de Parque Mayer onde não falta a inevitável e gasta figura do bêbado ou a cena de pancadaria. Não admira pois que, com tais níveis de representação, seja o folclore tão depreciado.

(*) Jornalista, Licenciado em História


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