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Mais do que uma forma de representação das nossas tradições populares, o
folclore tem vindo cada vez mais a transformar-se numa mercadoria e a
proporcionar o aparecimento de novas profissões a ele associadas, com
especial incidência para as que se relacionam com a actividade dos
ensaiadores, dos tocadores e dos próprios empresários do folclore, ou
seja, aqueles que dirigem os respectivos grupos e fazem a gestão dos
seus contratos.
Com efeito, a
representação etnográfica tem vindo a levantar problemas cada vez
maiores que, dadas as circunstâncias, nos levam a questionar se ainda
valerá a pena falar de autenticidade e acreditar na possibilidade de um
trabalho sério por parte dos ranchos folclóricos. Se tempos houve em que
estes vestiram o figurino do Estado Novo, a verdade é que não apenas
conservam o modelo que então lhes foi imposto como ainda inventaram
novos figurinos, qual deles o mais ridículo, todos contribuindo
invariavelmente para o descrédito do folclore. E todos os apelos e
recomendações com vista à correcção de determinados aspectos
considerados estranhos à essência do folclore resvalam, invariavelmente,
na indiferença dos responsáveis da maioria dos grupos folclóricos, o que
deverá certamente ter uma explicação.
Não existe a menor
preocupação de recolha no terreno, do estudo dos materiais antigos como
fotografias, peças de vestuário, partituras e alfaias que, nomeadamente,
se encontram à guarda de museus e outras entidades. Pior ainda, falta o
conhecimento e a compreensão da evolução social, a História dos usos e
costumes em função das transformações tecnológicas e das mudanças de
mentalidade, dos comportamentos humanos, das maneiras de vestir e da
evolução dos materiais. Em contrapartida, a maioria dos responsáveis dos
ranchos folclóricos limita-se a copiar algo que viu antes, quase sempre
sem questionar acerca da sua validade. E quando pretende introduzir algo
que possa constituir uma marca distintiva, fá-lo, geralmente, sem
critérios válidos.
Alguns grupos ditos
folclóricos têm vindo a incluir personagens cujo interesse do ponto de
vista etnográfico é bastante questionável, como sucede com o pároco de
aldeia ou a figura de um fidalgo tomado isoladamente, apenas porque
alguém reconstituiu um fato que particularmente utilizou, sem
demonstração da sua representatividade por parte de um grupo social.
Outros existem que incluem operários fabris na sua representação,
alegadamente etnográfica, ignorando que o aparecimento dos ranchos
folclóricos veio responder a uma necessidade de preservação da cultura
tradicional em relação à qual a sociedade moderna industrializada
representa uma ameaça. Foi precisamente a fábrica que veio uniformizar
os costumes e a forma de vestir dos trabalhadores rurais que nela
ingressaram da mesma forma que o ruído das máquinas sufocou os cantares
que antes o acompanhavam livremente nos trabalhos da lavoura. Por este
andar, não tardará que tais grupos venham a incluir outros grupos
profissionais como o polícia e o técnico de informática, transportando
consigo as suas próprias alfaias…
Sucede que, do
espírito fantasioso que noutras épocas levou à modificação dos trajes
tradicionais, incorporando-lhe elementos estranhos e cortes mais ao
gosto da revista à portuguesa, agora se acrescenta o espírito
imaginativo que leva a reinventar o folclore, procurando fugir à rotina
e torná-lo ainda mais atraente. E, o que ainda mais surpreendente,
quanto mais fantasioso e ridículo mais é apresentado como genuíno!
Mas a criatividade
dos nossos folcloristas não se limita às personagens que os seus
componentes procuram representar nem aos seus trajes fantasiosos – ela
estende-se às coreografias das suas danças e até às pretensas
representações etnográficas. Quais desfiles de modelos, algumas
coreografias mais não parecem do que cópias de actuações das coristas do
teatro de revista em palco ou na passerele enquanto as ditas
representações frequentemente se assemelham a rábulas de Parque Mayer
onde não falta a inevitável e gasta figura do bêbado ou a cena de
pancadaria. Não admira pois que, com tais níveis de representação, seja
o folclore tão depreciado.
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