|
A divisão social do trabalho constitui uma das características das
sociedades humanas. O aparecimento de novos ofícios levou à necessidade
de, no seio de uma determinada comunidade, alguns indivíduos se
especializarem em determinadas tarefas e a elas se dedicarem quase
exclusivamente. Assim sucedeu, nomeadamente, com o aparecimento da
metalurgia do cobre cuja introdução veio a repercutir-se nomeadamente na
agricultura, criando a possibilidade de manter artífices especializados
libertos dos trabalhos agrícolas e dando origem à acumulação de
excedentes alimentares que possibilitou a estratificação da sociedade.
Porém, ainda antes da chamada Idade do Cobre ou do Calcolítico, ocorrida
há cerca de 2.500 mil anos anteriores à Era Cristã, já o Homem havia
estabelecido a primeira divisão do trabalho assente no género ou seja,
entre o homem e a mulher.
À medida que a sociedade evolui e se estratifica, estabelecendo novas
divisões do trabalho, também as funções exercidas por homens e mulheres
se vão demarcando e ficando mais definidas, dando inclusive origem a
grupos sociais claramente identificados no género como sucedeu com
aqueles que se especializaram na defesa e no sagrado. A divisão do
trabalho teve naturalmente em conta as aptidões de cada indivíduo para a
realização de determinadas tarefas e as vantagens de se agruparem e
trocarem entre si os bens que produzem de uma forma especializada em vez
cada um produzir isoladamente tudo aquilo de que necessita.
Esta separação de tarefas chegou até aos nossos dias e corresponde a uma
superstrutura cultural que estabelece o lugar que cada indivíduo ocupa e
dita as normas de comportamento social, incluindo no seio da família.
Ao tentar reconstituir os hábitos culturais de uma sociedade entretanto
desaparecida, a etnografia deve preservá-los tal como o etnólogo os
observou, desprendendo-se de preconceitos morais impostos pelas ideias
em voga na sociedade em que vive, pois é sobretudo um cientista. De
igual forma, cabe ao grupo folclórico, como repositório vivo de tais
tradições, respeitar a sua autenticidade e evitar a tentação de lhe
introduzir elementos fantasiosos por motivos que não dizem respeito à
etnografia.
Tal como os indivíduos se diferenciam entre si, não vestindo o homem em
circunstâncias normais o vestuário da mulher nem empregando os mesmos
jeitos, também a separação do género se reflectiu nos mais variados
momentos da vida social, incluindo naquilo que actualmente se
convencionou designar por folclore. A começar pelo facto de, numa
sociedade tradicional, ser impensável uma mulher travestir-se para se
apresentar a terreiro a bailar com outra mulher, como por vezes é
representado por alguns grupos de folclore que se debatem com a falta de
componentes masculinos para a dança.
Mas a diferenciação no género vai ainda mais longe, nomeadamente quando
se trata da execução de instrumentos de música tradicional. Ao contrário
do que por vezes se assiste, o adufe, o pandeiro e a pandeireta eram
apenas executados por mulheres. O aparecimento de homens a tocar o adufe
deveu-se sobretudo ao cantor José Afonso que o fazia nos seus
espectáculos, não devendo tal facto ser considerado a nível etnográfico.
De igual modo, não cabe à mulher rufar o bombo dos Zé-pereiras ou de
Lavacolhos, no Fundão, marcando a sua cadência marcial.
Debate-se a origem da gaita-de-foles e a possibilidade da sua execução
pela mulher como por vezes sucede na Galiza e também a interpretação do
cante alentejano sem ser pelo homem atingida a fase adulta devido
nomeadamente às características vocais. São diversos os aspectos a
referir neste domínio, alguns dos quais sujeitos a estudo mais
aprofundado. Importa, contudo, ao representar os usos e costumes
antigos, ter a consciência da organização da sociedade tradicional ao
tempo e apresentá-la da forma mais rigorosa possível, sem lhe
enxertarmos elementos que lhe são estranhos e apenas dizem respeito ao
nosso modo de vida actual. |