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»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


O Folclore e a divisão social do trabalho
 

 

Carlos Gomes(*)

A divisão social do trabalho constitui uma das características das sociedades humanas. O aparecimento de novos ofícios levou à necessidade de, no seio de uma determinada comunidade, alguns indivíduos se especializarem em determinadas tarefas e a elas se dedicarem quase exclusivamente. Assim sucedeu, nomeadamente, com o aparecimento da metalurgia do cobre cuja introdução veio a repercutir-se nomeadamente na agricultura, criando a possibilidade de manter artífices especializados libertos dos trabalhos agrícolas e dando origem à acumulação de excedentes alimentares que possibilitou a estratificação da sociedade. Porém, ainda antes da chamada Idade do Cobre ou do Calcolítico, ocorrida há cerca de 2.500 mil anos anteriores à Era Cristã, já o Homem havia estabelecido a primeira divisão do trabalho assente no género ou seja, entre o homem e a mulher.

À medida que a sociedade evolui e se estratifica, estabelecendo novas divisões do trabalho, também as funções exercidas por homens e mulheres se vão demarcando e ficando mais definidas, dando inclusive origem a grupos sociais claramente identificados no género como sucedeu com aqueles que se especializaram na defesa e no sagrado. A divisão do trabalho teve naturalmente em conta as aptidões de cada indivíduo para a realização de determinadas tarefas e as vantagens de se agruparem e trocarem entre si os bens que produzem de uma forma especializada em vez cada um produzir isoladamente tudo aquilo de que necessita.

Esta separação de tarefas chegou até aos nossos dias e corresponde a uma superstrutura cultural que estabelece o lugar que cada indivíduo ocupa e dita as normas de comportamento social, incluindo no seio da família.

Ao tentar reconstituir os hábitos culturais de uma sociedade entretanto desaparecida, a etnografia deve preservá-los tal como o etnólogo os observou, desprendendo-se de preconceitos morais impostos pelas ideias em voga na sociedade em que vive, pois é sobretudo um cientista. De igual forma, cabe ao grupo folclórico, como repositório vivo de tais tradições, respeitar a sua autenticidade e evitar a tentação de lhe introduzir elementos fantasiosos por motivos que não dizem respeito à etnografia.

Tal como os indivíduos se diferenciam entre si, não vestindo o homem em circunstâncias normais o vestuário da mulher nem empregando os mesmos jeitos, também a separação do género se reflectiu nos mais variados momentos da vida social, incluindo naquilo que actualmente se convencionou designar por folclore. A começar pelo facto de, numa sociedade tradicional, ser impensável uma mulher travestir-se para se apresentar a terreiro a bailar com outra mulher, como por vezes é representado por alguns grupos de folclore que se debatem com a falta de componentes masculinos para a dança.

Mas a diferenciação no género vai ainda mais longe, nomeadamente quando se trata da execução de instrumentos de música tradicional. Ao contrário do que por vezes se assiste, o adufe, o pandeiro e a pandeireta eram apenas executados por mulheres. O aparecimento de homens a tocar o adufe deveu-se sobretudo ao cantor José Afonso que o fazia nos seus espectáculos, não devendo tal facto ser considerado a nível etnográfico. De igual modo, não cabe à mulher rufar o bombo dos Zé-pereiras ou de Lavacolhos, no Fundão, marcando a sua cadência marcial.

Debate-se a origem da gaita-de-foles e a possibilidade da sua execução pela mulher como por vezes sucede na Galiza e também a interpretação do cante alentejano sem ser pelo homem atingida a fase adulta devido nomeadamente às características vocais. São diversos os aspectos a referir neste domínio, alguns dos quais sujeitos a estudo mais aprofundado. Importa, contudo, ao representar os usos e costumes antigos, ter a consciência da organização da sociedade tradicional ao tempo e apresentá-la da forma mais rigorosa possível, sem lhe enxertarmos elementos que lhe são estranhos e apenas dizem respeito ao nosso modo de vida actual.

(*) Jornalista, Licenciado em História

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