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»» O saber não ocupa lugar >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


Feiras Tradicionais conservam velhas usanças

 

Carlos Gomes(*)

(Continuação...)

Como é evidente, refiro-me às feiras tradicionais que têm a sua origem na Idade Média ou mesmo em épocas mais recentes e não propriamente aos mercados que nos últimos tempos têm vindo a proliferar nas áreas urbanas e nas periferias das grandes cidades, quais hipermercados ao ar livre, fazendo concorrência com o comércio legalmente estabelecido, onde se escoam toda a variedade de produtos contrafeitos. Este é um fenómeno resultante de uma certa desorganização social e fraqueza de autoridade, sendo muito frequente surgir em períodos de crise económica e com maior ocorrência nos países menos desenvolvidos e estruturados.

Também é certo que muitas feiras que possuem origens consideradas históricas já se descaracterizaram, a começar pelos próprios produtos que são vendidos no local. Apesar do seu tipicismo saloio tão bem retratado pelo aguarelista Leal da Câmara, na Feira das Mercês, em Sintra, já vai sendo mais fácil beber uma caipirinha do que uma malga de água-pé, comer uma posta de salmão do que um naco de leitão de Negrais. E até as tendas passaram a obstruir os acessos aos bancos de pedra do tão característico muro do derrete, assim designado por ser o local onde as moças se derretiam a ver os rapazes passar ao longo da estrada que dá acesso à feira.

Não obstante, existem velhas usanças que teimam em subsistir. Para o visitante mais atento e integrado na comunidade local, não é difícil se aperceber que a feira é ainda em muitos casos o local onde se contratam os trabalhadores, aguardando-se por esse dia e ocasião para de igual modo efectuar os pagamentos. Ainda, apesar dos actuais meios de transporte dispensarem a penosa caminhada de vários quilómetros a pé nas deslocações de ida e volta à feira, as pessoas mantêm o curioso hábito de preservarem um local comum de encontro, geralmente o mesmo que utilizam de há séculos, como um ritual que se conserva por força da tradição.

Quem conhece os hábitos locais relacionados com a organização da feira da respectiva localidade, a respectiva História e as suas origens, facilmente percebe porque as várias comunidades agem de uma determinada forma, mormente escolhem um determinado ponto de encontro, sobretudo quando a feira se realiza dentro do espaço urbano. Em Ponte de Lima, a título de exemplo, existe uma certa relação entre esses locais de reunião e as antigas muralhas que as gentes eram outrora periodicamente obrigadas a proceder à manutenção e limpeza. Ao mesmo tempo, no meio daquela imensa multidão, torna-se relativamente fácil localizar alguém, partindo-se do princípio de que se trata de uma pessoa inserida nos hábitos locais e socialmente integrada.

As feiras tradicionais, pelo menos aquelas que preservam de algum modo a sua identidade, continuam a ser um mostruário de antigos usos e costumes das gentes locais, do seu passado histórico e das suas tradições. São, por assim dizer, um livro aberto para todos os estudiosos da nossa cultura tradicional.

(*) Jornalista, Licenciado em História

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