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(Continuação...)
Como é evidente, refiro-me às feiras tradicionais que têm a sua origem na
Idade Média ou mesmo em épocas mais recentes e não propriamente aos mercados
que nos últimos tempos têm vindo a proliferar nas áreas urbanas e nas
periferias das grandes cidades, quais hipermercados ao ar livre,
fazendo concorrência com o comércio legalmente estabelecido, onde se escoam
toda a variedade de produtos contrafeitos. Este é um fenómeno resultante de
uma certa desorganização social e fraqueza de autoridade, sendo muito
frequente surgir em períodos de crise económica e com maior ocorrência nos
países menos desenvolvidos e estruturados.
Também é certo que muitas feiras que possuem origens consideradas históricas
já se descaracterizaram, a começar pelos próprios produtos que são vendidos
no local. Apesar do seu tipicismo saloio tão bem retratado pelo aguarelista
Leal da Câmara, na Feira das Mercês, em Sintra, já vai sendo mais fácil
beber uma caipirinha do que uma malga de água-pé, comer uma posta de
salmão do que um naco de leitão de Negrais. E até as tendas passaram a
obstruir os acessos aos bancos de pedra do tão característico muro do
derrete, assim designado por ser o local onde as moças se derretiam
a ver os rapazes passar ao longo da estrada que dá acesso à feira.
Não obstante, existem velhas usanças que teimam em subsistir. Para o
visitante mais atento e integrado na comunidade local, não é difícil se
aperceber que a feira é ainda em muitos casos o local onde se contratam os
trabalhadores, aguardando-se por esse dia e ocasião para de igual modo
efectuar os pagamentos. Ainda, apesar dos actuais meios de transporte
dispensarem a penosa caminhada de vários quilómetros a pé nas deslocações de
ida e volta à feira, as pessoas mantêm o curioso hábito de preservarem um
local comum de encontro, geralmente o mesmo que utilizam de há séculos, como
um ritual que se conserva por força da tradição.
Quem conhece os hábitos locais relacionados com a organização da feira da
respectiva localidade, a respectiva História e as suas origens, facilmente
percebe porque as várias comunidades agem de uma determinada forma, mormente
escolhem um determinado ponto de encontro, sobretudo quando a feira se
realiza dentro do espaço urbano. Em Ponte de Lima, a título de exemplo,
existe uma certa relação entre esses locais de reunião e as antigas muralhas
que as gentes eram outrora periodicamente obrigadas a proceder à manutenção
e limpeza. Ao mesmo tempo, no meio daquela imensa multidão, torna-se
relativamente fácil localizar alguém, partindo-se do princípio de que se
trata de uma pessoa inserida nos hábitos locais e socialmente integrada.
As
feiras tradicionais, pelo menos aquelas que preservam de algum modo a sua
identidade, continuam a ser um mostruário de antigos usos e costumes das
gentes locais, do seu passado histórico e das suas tradições. São, por assim
dizer, um livro aberto para todos os estudiosos da nossa cultura
tradicional. |