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É costume frequente,
nas povoas de pescadores, as mulheres vestirem-se permanentemente de
luto pois existe quase sempre um familiar próximo que não regressou da
campanha junto com os seus camaradas: quando não foi o pai, terá sido um
irmão, o marido ou o próprio filho. Na praia, elas aguardam ansiosas
pelo seu regresso. E, quando o mar se revolta e sobre ele um manto de
nevoeiro cai, a sereia por eles chama e a vila se agita num alvoroço
carregado de angústia. O pescador arrisca a vida para do mar trazer o
parco sustento da família – o lucro vai direitinho para os
intermediários e para os luxuosos estabelecimentos hoteleiros onde o
servem a preços impraticáveis. E, no entanto, quanto custará a vida de
um ser humano?
Por vezes, em dia de
temporal, é à entrada da barra que a tragédia o aguarda, virando a
embarcação ou espatifando-se contra o molhe. Que o digam os pescadores
das Caxinas e de Vila Praia de Âncora. Como disse o poeta:
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Mas, quando
regressavam de noite escura, avistavam geralmente ao longe uma sentinela
vigilante que, protectora, os aguardava e conduzia até alcançarem a
costa. Era uma luz cintilante que baloiçava, transportado pelas mãos de
alguém que surgia como um anjo a indicar o local onde podiam, enfim,
ancorar. Essa luz era um farol que indicava a existência de terra firme
e o navegante apenas tinha de seguir no seu enfiamento.
Os faróis cuja
designação provêm do termo grego Faros, em alusão à ilha próxima de
Alexandria, onde foi erguido o famoso farol de Alexandria, eram
inicialmente constituídos por meras fogueiras ou luzes de azeite
destinados a avisar os navegadores da aproximação de terra ou outros
perigos para a navegação. Desde então, a sua evolução não mais se
deteve, tendo dado origem a modernos equipamentos electrónicos dotados
de curiosos sistemas de óptica, instalados em edifícios que, regra
geral, constituem interessantes obras de arquitectura e se erguem nos
sítios mais surpreendentes.
Foram estes
equipamentos sempre de grande utilidade para os pescadores e navegadores
em geral. À entrada da barra, as luzes verde e vermelha indicam-lhes
respectivamente o bombordo e o estibordo da embarcação, noções de
orientação criadas pelos portugueses durante as navegações que fizeram
ao longo da costa africana e que entretanto se universalizaram.
Desde 1924, o
funcionamento e manutenção dos faróis é da responsabilidade da Direcção
de Faróis, um órgão da Marinha que se dedica nomeadamente à operação e
manutenção das ajudas à navegação. Porém, o aparecimento de novas
tecnologias tem levado a que os faróis se tornem espaços museológicos
com grande interesse sobretudo para os mais jovens, uma vez que
constituem magníficas peças de óptica e relojoaria. Para além de
constituírem um espaço de memória de especial significado para as
comunidades piscatórias e que deve ser preservado, pois os faróis foram
desde sempre “sentinelas do mar” a vigiar pela segurança dos
pescadores e dos navegantes em geral!
Nota:
A imagem mostra o
farol do Cabo Mondego, na serra da Boa Viagem, junto à freguesia de
Buarcos. |