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Desde os começos do século XIX, a formação de
ranchos folclóricos
foi nas sociedades europeias e norte-americanas a forma preferida de
representar as tradições de uma vivência social que desaparecia com o
avanço da moderna sociedade industrial e o aumento da mobilidade das
populações. Estes grupos, formalmente constituídos, tornaram-se numa
espécie de formas musealizadas de conservação de um património popular
uma vez que, na realidade, a preservação desses modelos sociais e
culturais não é mais possível.
Nos Estados Unidos da América, foram ao ponto de reconstituir em
reservas os modos de vida passados, em espaços visitáveis onde os
figurantes são transportados para um tempo recuado, de modo a poderem
representar o mais fielmente possível a sociedade vivida à época.
Referimo-nos, claro está, a experiências museológicas e não a formas de
conduta social de determinadas comunidades religiosas.
Ainda que os ranchos folclóricos possam representar outros aspectos
etnográficos para além dos que mais directamente se relacionam com a
dança, incluindo os cantares e os instrumentos musicais, a
reconstituição é sempre algo limitada na medida que pouco vai mais além
da exibição dos trajes e das alfaias, relacionando-as com o trabalho e
outras actividades sociais. Pretende-se, com isto, afirmar que a
representação do folclore pode ser feita por meio de outras formas de
reconstituição, nomeadamente a recriação das feiras ou de qualquer
actividade, tão próxima do meio natural como forma de prevenir eventuais
anacronismos. Um mal, aliás, de que os ranchos folclóricos
bastante padecem…
A recriação das desfolhadas e das malhadas, a reanimação de
romarias
caídas no esquecimento ou a reconstituição de
feiras situadas num
determinado espaço físico e temporal podem revelar-se formas mais
elucidativas de representar os usos e costumes de uma região numa época
determinada. E, em certos casos, tais iniciativas podem resultar numa
combinação de diferentes formas de expressão artística, associando
nomeadamente o teatro, o circo, a poesia, a dança e o canto num
espectáculo único. Afinal de contas, à feira de raiz medieval acorriam,
para além do povo e dos comerciantes, os jograis e toda a sorte de
saltimbancos. E, na medida em que constituía o principal ponto para onde
convergiam todos os grupos sociais e reflectia a organização da época, a
reconstituição da feira pode espelhar com maior rigor as tradições já
desaparecidas.
Os problemas que se lhe colocam são precisamente os mesmos com que se
depara qualquer tentativa de reconstituição, inclusive através dos
chamados ranchos folclóricos ou seja, a necessidade de identificar
claramente os elementos contemporâneos e representar com o maior rigor
os usos e costumes de uma época claramente identificada. Não faz o menor
sentido, como frequentemente sucede, apresentar como autêntico aquilo
que na realidade não o é, confundindo costumes e épocas diferenciadas,
quando não sucede dar-se largas à imaginação…
E, finalmente, tal como sucede na
romaria ao São João d’Arga, não
incluir na representação o rancho folclórico enquanto tal uma vez
que ele próprio constitui um anacronismo na medida em que, à época que
se procura representar, ele próprio não existia! |