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É o povo enquanto grupo social, visto numa perspectiva de conjunto,
analisando a sua identidade étnica, as suas origens, os seus usos e
costumes que constitui o objecto de estudo da
Etnologia e, consequentemente, da sua própria descrição ou seja, a
Etnografia. Por
conseguinte, a sua investigação e análise não incide no indivíduo tomado
isoladamente, independentemente da sua função social, podendo no entanto
considerá-lo como uma figura-tipo representativa de um extracto social,
inserido num contexto bem determinado na medida que o mesmo possa
reflectir e sintetizar os hábitos de uma comunidade. |
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Vem isto a propósito da apresentação que é feita por alguns grupos
folclóricos de indumentárias que se identificam com alguém que viveu
numa época mais recuada no tempo, sem contudo explicar em que medida
tais peças de vestuário poderão ser consideradas um
traje característico
de um determinado grupo social e em que contexto era o mesmo utilizado.
Por exemplo, um determinado grupo folclórico tem por regra apresentar um
fato masculino segundo o qual, constitui um modelo do que era
habitualmente usado pelo morgado de Covas.
A freguesia de Covas pertence ao concelho de Vila Nova de Cerveira e, o
referido morgado, foi em vida um afamado cavaleiro tauromáquico que se
celebrizou em numerosas faenas que, nos começos do século XX,
decorreram em muitas praças de touros, algumas das quais já
desaparecidas como a de Algés e a do Campo de Santana. Tendo também, em
função das lides em que participou, envergado com frequência o traje
característico do cavaleiro de tauromaquia, vulgo traje de luces,
bem poderia o referido grupo folclórico incluí-lo na panóplia de
trajes que exibe. E, em coerência com tal raciocínio, juntar-lhe um “grupo
de forcados”…
Sucede que à Etnografia apenas interessa a forma como o
povo se vestia,
quer fosse para trabalhar na lavoura ou em dia de romaria. Importa saber
como trajava a lavradeira e o pescador, o moleiro e o marnoto, o
resineiro e o pescador – não é o fato do senhor fulano de tal, que
porventura até foi mandado fazer a um conceituado costureiro parisiense,
aquilo que constitui matéria de estudo da Etnografia e do
Folclore. Não
são os veludos e os cristais exibidos pela família real ou os luxos da
aristocracia que contribuem para a descrição etnográfica.
O vestuário que foi um dia utilizado por alguém não é necessariamente
considerado traje característico do povo num determinado contexto social
e temporal. Da mesma forma que a criação genial de muitos compositores
de música erudita, ainda que inspirada em trechos do nosso folclore,
jamais pode ser considerada música tradicional ou, como é mais vulgar
dizer-se, folclórica.
Em conclusão, a não ser que o senhor morgado de Covas trajasse como o
povo humilde da sua terra e com ele tivesse partilhado os árduos
trabalhos da lavoura, o seu modo de vestir não é representativo das
gentes daquela aldeia do Alto Minho e, por conseguinte, a apresentação
do seu fato no contexto de uma exibição de folclore não faz o menor
sentido. Importa, quanto muito, para o estudo da evolução do vestuário
em Portugal, mas jamais numa perspectiva etnográfica. |