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»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


A Etnografia no Postal Ilustrado
 

 

Carlos Gomes(*)

Desde os tempos mais remotos, o Homem procurou sempre conhecer diferentes terras e culturas, partir à descoberta de outras civilizações e povos com outros usos e costumes, tendência que foi sempre acentuada com o desenvolvimento da actividade mercantil, nomeadamente as grandes rotas comerciais e o estabelecimento das feiras medievais. Contudo, o turismo encarado enquanto mercadoria só veio a surgir com o aparecimento da sociedade moderna determinado pelo processo de industrialização dos meios de produção e a criação de novos bens de consumo. O turismo, incluindo as actividades sociais com ele relacionadas, constituiu assim mais um produto que visou a princípio satisfazer os prazeres de uma sociedade burguesa que pretendia ao mesmo tempo a sua afirmação social.

Mais do que reunir conhecimentos, o turista burguês procurava afirmar o seu cosmopolitismo e evidenciava-se como um coleccionador de bizarrias, entre as quais figuravam costumes típicos que se apresentavam estranhos ao senso comum do habitante da cidade que ignorava a existência humana para além do que lhe era dado a observar através das lunetas, nas noites de ópera no Teatro S. Carlos. É neste contexto que os trajes típicos das diferentes regiões do país surgem como uma curiosidade que é copiada pelas famílias burguesas como disfarces carnavalescos e se multiplicam postais e outras ilustrações retratando tão bizarros costumes para gáudio de pessoas consideradas civilizadas.

O aparecimento do postal ilustrado encontra-se associado ao turismo moderno que teve o seu advento sobretudo a partir dos começos do século XX. A Revolução Industrial operada no século XIX permitiu uma evolução notável das vias de comunicação, nomeadamente nos meios de transporte ferroviário e fluvial. Com elas veio também a instalação de grandes hotéis, casinos e outras formas de entretimento para os viajantes, muitos deles estrategicamente situados no centro das capitais ou junto às estações de comboio.

A partir de então, os países e os continentes tornaram-se mais próximos, encurtando substancialmente o tempo demorado em viagens. Entretanto, surgiu o automóvel e, com ele, a possibilidade de deslocar-se mais facilmente e conhecer novas paisagens.

Beneficiando do progresso então verificado que veio introduzir novos hábitos na sociedade, as pessoas começaram a viajar, partindo à descoberta de novas terras e novas gentes, procurando por esse meio também enriquecer os seus conhecimentos em contacto com novas realidades. À semelhança do que antes se verificava com as estadias nas termas, viajar passou também a constituir uma forma de afirmação do estatuto social das classes mais abastadas.

(*) Jornalista, Licenciado em História

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