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A política cultural
do Estado Novo em relação ao folclore levou à sua própria musealização
ou seja, à sua transformação em peça de museu destinada a transmitir as
virtualidades de uma sociedade rural e a vivência alegre de um povo que,
apesar de economicamente pobre, se revelava espiritualmente rico e, na
sua simplicidade, encontrava os maiores motivos de felicidade na sua
existência humilde.
A concepção segundo a
qual o folclore constitui objecto destinado a ser conservado tal como
foi possível encontrar e, por conseguinte, objecto de musealização,
resulta da ideia de que as formas de vivência social que o mesmo trata
remetem a uma ambiência rural ou piscatória que remonta para uma
determinada época na qual ainda não se observam as influências da
revolução industrial nos modos de vida das populações e nos processos de
trabalho. Entre nós, esse período temporal corresponde geralmente aos
finais do século XIX, claramente relacionado com uma época de grande
fomento industrial e das vias de comunicação, identificado com a
Regeneração implementada sob as orientações do governo de Fontes Pereira
de Melo.
Os ranchos
folclóricos, muitos dos quais constituídos sob a égide do Estado Novo e
com o patrocínio da Junta Central das Casas do Povo, prosseguiram
uma orientação que os levou a assumirem a função de mostruário dos usos
e costumes das respectivas regiões, teatralizando as tradições populares
e, desse modo, exercendo uma finalidade museológica enquanto instrumento
de preservação e de divulgação do objecto folclórico. Através de tais
agrupamentos, a representação do folclore cingiu-se quase sempre à
representação das danças e dos cantares e à exibição dos respectivos
trajes. De fora ficou toda uma vivência que abrange todos os domínios do
saber, desde a medicina tradicional à gastronomia, da tradição oral à
religiosidade popular.
Existindo embora
alguns ranchos folclóricos que afirmem representar os costumes vividos
em meados do século vinte, a esmagadora maioria situa a sua
representação nos finais do século XIX e começos do século XX. A datação
do folclore levanta de imediato a questão a saber se o folclore “morreu”
ou, por outras palavras, o modo de vida actual no meio rural não é mais
objecto de estudo dos etnólogos e, por conseguinte, a sabedoria popular
não existe mais. E, assim sendo, desde quando deixou de existir
folclore, para além daquele que foi musealizado e é representado através
dos ranchos folclóricos. No sentido inverso, considerando que existem
métodos de pesquisa para além dos habituais processos de recolha
empregues pelos etnólogos com recurso a novas técnicas que apenas a era
industrial nos proporcionou como a fotografia e a gravação magnética,
questiona-se porque não são feitas reconstituições de períodos temporais
anteriores aos que geralmente são representados.
Por outro lado,
ranchos folclóricos existem que incluem na sua representação alguns
tipos urbanos, por vezes exibindo uma indumentária confeccionada a
partir de tecidos de invenção recente com origem industrial. Isto
remete-nos para a ideia que alguns defendem relativamente ao traje
tradicional, o qual não deve mais ser considerado uma peça de museu mas
ser observado no seu aspecto dinâmico, na vivência diária das pessoas
que o utilizam, marcado pelas influências de cada época nas formas e
padrões, bem assim nos materiais com que são confeccionados. É, aliás,
exemplo disso a forma de actualmente vestir da mulher da Nazaré.
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