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O dirigismo cultural
é, regra geral, um traço característico de todos os regimes autoritários
que procuram, através do seu controlo, veicular uma ideologia e desse
modo manipular as consciências. Constituindo o folclore uma das
temáticas preferidas do Romantismo e tendo ajudado a construir a ideia
de identidade nacional, não admira pois que o mesmo seja também
utilizado como veículo de propaganda. Toda a gente se recorda dos
inúmeros grupos folclóricos oriundos do leste europeu que, há algumas
décadas atrás nos visitaram, sempre devidamente acompanhados por
representantes estatais dos respectivos países.
Como é evidente, esta
utilização do folclore resulta invariavelmente na adulteração do seu
carácter original com a introdução intencional de novos padrões
estéticos os quais, com o decorrer do tempo, são assimilados ao ponto de
passarem a ser considerados genuínos. Lamentavelmente, o folclore
português está repleto de elementos estranhos que deveriam ser
expurgados, a maior parte dos quais introduzidos durante o período do
Estado Novo.
Para a concretização
de tal política de dirigismo cultural, o Estado Novo contou com diversos
instrumentos, entre os quais um conjunto de instituições e organismos
estatais como o Ministério da Educação Nacional, o Secretariado da
Propaganda Nacional, a
Mocidade Portuguesa, a Junta Central das Casas do
Povo e a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), esta
criada à semelhança da Opera Nazionale Dopolavoro italiana e que
viria, após o 25 de Abril de 1974, a dar origem ao actual INATEL.
Organizava ainda feiras, exposições e concursos dos quais ficou célebre
o que premiou o Monsanto como “a aldeia mais portuguesa de Portugal”.
Através das “casas
do povo”, patrocinou-se a criação de ranchos folclóricos.
Entretanto, mudaram-lhes a coreografia e a indumentária. Organizam “concursos
de folclore”. De entre eles, elegeram e apadrinharam uns tantos como
sendo alegadamente os mais representativos da sua região. O mesmo foi
feito em relação às festas e romarias populares que contribuiu para
perderem em grande parte o seu elemento devocional se transformarem em
meros cartazes de propaganda turística, destacando umas em relação às
demais. E, para melhor realizar essa missão, o Estado Novo teve a
colaboração de intelectuais de renome como Armando Leça, Abel Viana e
Pedro Homem de Mello, sob a sábia orientação de António Ferro, ministro
da Propaganda do anterior regime.
O folclore tornou-se
desse modo um objecto de adorno e um instrumento de propaganda
susceptível a incorporar as mais incríveis e imaginativas modificações,
sobretudo na sua perfomance e nos trajes mas também na música e
no próprio cancioneiro. E elas são tantas que nos escusamos de aqui as
enumerar. |