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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Embarcações tradicionais portuguesas e a arte da construção naval

 

Carlos Gomes(*)

(Continuação...)

A muleta distinguia-se pela grande quantidade de velas triangulares e rectangulares, armadas à vante e à ré. Desapareceu nos finais do século XIX. Até então, percorria os esteiros dos rios Tejo e Sado, dedicando-se à pesca de arrasto da solha e do linguado. Pela importância que representou na vida das populações locais, os municípios do Barreiro e do Seixal adoptaram-na na sua heráldica.

No estuário do rio Sado foram famosos os galeões do sal os quais passaram também a transportar arroz e cortiça. E, no Algarve, os buques eram as embarcações outrora utilizadas na pesca do atum, possuindo uma capacidade de transporte de quarenta toneladas. Célebres ficaram também os botes baleeiros que serviam na caça à baleia e ao cachalote praticada pelos pescadores açorianos. E, por fim, as escunas, patachos, brigues e lugres que serviam na captura do bacalhau nos bancos da Terra Nova.

De entre todas as embarcações tradicionais portuguesas, os barcos saveiros merecem um especial destaque devido à forma particular como é construído, totalmente em madeira, incluindo os próprios pregos e cavilhas. Mas também pelas suas origens medievais e ligação aos métodos desenvolvidos aquando dos Descobrimentos, dando origem a uma grande variedade que se pode encontrar com grande frequência ao longo da costa portuguesa, constituindo um dos motivos de atracção turística.

É extensa a lista de embarcações tradicionais portuguesas e exaustivo seria enumerá-las todas e proceder à sua descrição pormenorizada. Aliás, não existe curso de água navegável no nosso país que não tenha conhecido pelo menos um modelo característico, consoante a actividade em que era empregue. Isto para não referirmos a diversidade existente ao longo da costa portuguesa cujas características diferem substancialmente entre a frente Atlântica e a entrada do Mediterrâneo. Ficam certamente por referir a lancha poveira e a aiola, a barca de Sesimbra e a traineira de Peniche, a bateira e a enviada, a rasca e a praieira, a chalupa e a lancha da sardinha.

A evolução dos meios de transporte e das vias de comunicação veio ameaçar a sobrevivência das embarcações tradicionais. Porém, elas podem ainda representar um factor de progresso regional e local se às mesmas for dada uma nova utilização mais virada para a actividade cultural e o turismo, possibilitando dessa forma a sua recuperação e manutenção. Para além dos percursos que podem ser organizados para dar a conhecer as maravilhas paisagísticas de muitas localidades ribeirinhas, a organização de regatas e outros festivais náuticos podem contribuir para a preservação de um património cultural e artístico que corre o risco de desaparecer. Para que melhor se perceba a importância e o alcance da recuperação das embarcações tradicionais e dos factores de desenvolvimento local que o mesmo pode produzir, bastará como exemplo referir a utilização turística da gôndola veneziana e o seu impacto na economia daquela cidade italiana.

(*) Jornalista, Licenciado em História


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