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Embarcações tradicionais portuguesas e a arte da construção naval

 

Carlos Gomes(*)

(Continuação...)

As técnicas e artes da construção naval constituem uma das vertentes mais importantes da arquitectura e da engenharia de raiz popular e tradicional. O seu desenvolvimento deu origem a novas profissões, muitas das quais se encontram consagradas na toponímia de muitas localidades piscatórias como se verifica com os calafates e os carpinteiros de machado. É que, sem a arte da construção das embarcações seria impensável a navegabilidade, incluindo a que se relaciona com a actividade pesqueira e as tradições que lhe estão associadas.

Em diversos portos de abrigo que no passado serviram gregos e fenícios, criaram-se estaleiros que utilizavam a madeira da floresta que era plantada nos terrenos dunares do litoral. E, aí, com a mestria de quem domina as técnicas empregues nos mais rigorosos cálculos matemáticos, incluindo a trigonometria esférica e as mais complicadas equações algébricas e integrais, os nossos mestres – na maioria das vezes ignorantes do alfabeto – aplicavam o seu saber e, com recurso ao graminho para efectuar os seus cálculos, concebiam as melhores obras de construção naval que se encontram na base a correspondente engenharia. Foram eles, aliás, que transformaram as primitivas barcas nas caravelas que levaram Gil Eanes a dobrar o Cabo da Boa Esperança, tal como foi o graminho utilizado pelos navegadores na mítica Escola de Sagres.

Para além da sua funcionalidade, algumas embarcações tradicionais incluem motivos pictóricos de interesse artístico e etnográfico como se verifica com os moliceiros e as fragatas do rio Tejo. Outras testemunham uma migração interna das gentes ovarinas para Lisboa como sucede com os varinos.

A catraia era a embarcação emblemática de Esposende. Ostentando uma enorme verga que chegava aos oito metros de altura, esta embarcação era habitualmente utilizada na pesca da sardinha. Um pouco mais a sul, temos o característico barco rabelo cujas técnicas de construção remetem para a tradição nórdica, sem quilha e de fundo chato. Dispõe apenas de um mastro com vela quadrada e, à popa, a espadela que constitui um remo comprido para governo da embarcação. O seu percurso, desde o Pinhão até à Régua, era por vezes feito com o auxílio de juntas de bois que o puxavam a partir das margens ou seja, os chamados caminhos de sirga.

No rio Tejo, para além das mencionadas fragatas e varinos, existiram ainda a falua, o cangueiro, o batel do Tejo, o bote do pinho, o bote cacilheiro, a canoa e o culé, este também designado por varino de pau de aresta. O bote do pinho tinha por função transportar a madeira e ramos de pinho proveniente da margem sul para servir nos fornos do pão em Lisboa enquanto, devido à sua dimensão mais reduzida, a canoa cacilheira era empregue no transbordo e transporte para terra de cargas provenientes dos navios fundeados ao largo. De aspecto idêntico à fragata, o cangueiro navegava rio acima para fazer o transporte de materiais utilizados na construção civil, sendo frequente atracarem no Cais do Jardim do Tabaco enquanto a falua e o batel eram também usadas no transporte de pessoas efectuando a ligação entre as duas margens do rio Tejo. Aliás, durante muitos anos, as faluas foram o único meio de transporte de passageiros entre Lisboa e Cacilhas.

(*) Jornalista, Licenciado em História


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