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(Continuação...)
As técnicas e artes
da construção naval constituem uma das vertentes mais importantes da
arquitectura e da engenharia de raiz popular e tradicional. O seu
desenvolvimento deu origem a novas profissões, muitas das quais se
encontram consagradas na toponímia de muitas localidades piscatórias
como se verifica com os calafates e os carpinteiros de machado. É que,
sem a arte da construção das embarcações seria impensável a
navegabilidade, incluindo a que se relaciona com a actividade pesqueira
e as tradições que lhe estão associadas.
Em diversos portos de
abrigo que no passado serviram gregos e fenícios, criaram-se estaleiros
que utilizavam a madeira da floresta que era plantada nos terrenos
dunares do litoral. E, aí, com a mestria de quem domina as técnicas
empregues nos mais rigorosos cálculos matemáticos, incluindo a
trigonometria esférica e as mais complicadas equações algébricas e
integrais, os nossos mestres – na maioria das vezes ignorantes do
alfabeto – aplicavam o seu saber e, com recurso ao graminho para
efectuar os seus cálculos, concebiam as melhores obras de construção
naval que se encontram na base a correspondente engenharia. Foram eles,
aliás, que transformaram as primitivas barcas nas caravelas
que levaram Gil Eanes a dobrar o Cabo da Boa Esperança, tal como foi o
graminho utilizado pelos navegadores na mítica Escola de Sagres.
Para além da sua
funcionalidade, algumas embarcações tradicionais incluem motivos
pictóricos de interesse artístico e etnográfico como se verifica com os
moliceiros e as fragatas do rio Tejo. Outras testemunham uma migração
interna das gentes ovarinas para Lisboa como sucede com os varinos.
A catraia era
a embarcação emblemática de Esposende. Ostentando uma enorme verga que
chegava aos oito metros de altura, esta embarcação era habitualmente
utilizada na pesca da sardinha. Um pouco mais a sul, temos o
característico barco rabelo cujas técnicas de construção remetem
para a tradição nórdica, sem quilha e de fundo chato. Dispõe apenas de
um mastro com vela quadrada e, à popa, a espadela que constitui um remo
comprido para governo da embarcação. O seu percurso, desde o Pinhão até
à Régua, era por vezes feito com o auxílio de juntas de bois que o
puxavam a partir das margens ou seja, os chamados caminhos de sirga.
No rio Tejo, para
além das mencionadas fragatas e varinos, existiram ainda a
falua, o cangueiro, o batel do Tejo, o bote do
pinho, o bote cacilheiro, a canoa e o culé,
este também designado por varino de pau de aresta. O bote do
pinho tinha por função transportar a madeira e ramos de pinho
proveniente da margem sul para servir nos fornos do pão em Lisboa
enquanto, devido à sua dimensão mais reduzida, a canoa cacilheira
era empregue no transbordo e transporte para terra de cargas
provenientes dos navios fundeados ao largo. De aspecto idêntico à
fragata, o cangueiro navegava rio acima para fazer o
transporte de materiais utilizados na construção civil, sendo frequente
atracarem no Cais do Jardim do Tabaco enquanto a falua e o
batel eram também usadas no transporte de pessoas efectuando a
ligação entre as duas margens do rio Tejo. Aliás, durante muitos anos,
as faluas foram o único meio de transporte de passageiros entre Lisboa e
Cacilhas.
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