[ INÍCIO ]   [ Sobre o Portal ]   [ FAQs ]   [ Registar site ou blog ]   [ Enviar informações ]   [ Loja ]   [ Contactos ]

 
Pub
 
Arquitectura e construções
Artesanato
Cancioneiros Populares
Danças Populares
Festas e Romarias
Grupos de Folclore
Gastronomia e Vinhos
Instrumentos musicais
Jogos Populares
Lendas
Literatura Popular
Medicina Popular
Museus Etnográficos
Música Popular
Provérbios
Religiosidade Popular
Romanceiros
Sabedoria Popular
Superstições e crendices
Trajos
Usos e Costumes
Pub
 
Agenda de iniciativas
Bibliografia temática
Ciclos
Feiras
Festivais de Folclore
Glossário
Informações Técnicas
Loja
Permutas
Pessoas
Textos e Opiniões
Turismo
 
SUGESTÕES
Calendário agrícola
Datas comemorativas
Feriados Municipais
História do Calendário
Meses do ano
Províncias de Portugal
 
BLOGUES

Assine o Feed do Blog

Assine o Feed do Blog

Assine o Feed do Blog
 

 
 

 

Pub
 
»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


Devem os Grupos Folclóricos profissionalizar-se?
 

 

Carlos Gomes(*)

Numa sociedade assente na economia de mercado, quase todos os bens de consumo são transaccionáveis ou seja, constituem uma mercadoria sujeita às leis da oferta e da procura. Entre eles encontra-se, como não podia deixar de suceder, a própria cultura cujo acesso depende de igual forma da capacidade económica do potencial consumidor.

É claro que, a contribuir para o agravamento do valor da mercadoria, deverá ser considerado o factor de diferenciação social que é introduzido com vista a manter as distinções sociais em função daquilo que é consumido. Este princípio é válido para a cultura como para outras actividades sociais como o desporto e outras formas de lazer. Assim, compreende-se porque a fruição de determinados espectáculos culturais não se encontra ao alcance da maioria dos cidadãos nem o seu gosto é estimulado junto das gerações mais jovens no ambiente escolar. Trata-se, na realidade, de preservar um estatuto social e não tanto o nível de instrução do público, porquanto muitos dos habituais frequentadores da ópera entendem tanto do espectáculo a que assistem como o mais rude e ignorante camponês que jamais assistiu a uma representação teatral.

O folclore, como se sabe, tem a sua origem na sabedoria popular e, não obstante, tem ao longo dos tempos constituído fonte de inspiração de grandes compositores, autores teatrais e meros cançonetistas que, graças à sua interpretação, não deixam de beneficiar os direitos autorais de um bem que resulta da criação popular e, por conseguinte, não possui um autor individualizado. Porém, numa sociedade de consumo, também o que o povo cria constitui uma mercadoria que, sempre que é transaccionada, são-lhe aplicados impostos cujas receitas revertem para o Estado, para além dos dividendos que o seu vendedor aufere.

Quando um grupo folclórico comercializa o reportório que gravou, em princípio fruto da recolha feita na sua própria região, tal entidade mais não faz do que obter dividendos com a venda de um produto que resulta da criação intelectual de uma entidade colectiva que, neste caso, é o povo. E, tratando-se de um património de uma comunidade, o mesmo não deveria em princípio ser apropriado seja por quem for. A não ser que os direitos autorais do próprio povo revertessem directamente para a cultura popular, através do financiamento do Estado, em vez de serem cobrados pelos próprios artistas através das entidades que os representam.

Esta questão até poderia parecer algo bizarra se, na realidade, a representação do folclore constituísse uma manifestação genuína de preservação da nossa cultura tradicional, na qual todos os agentes intervenientes se encontrassem irmanados do mesmo espírito de generosidade. Sucede, porém, que o mesmo tem vindo nalguns casos a dar origem à remuneração de ensaiadores, tocadores e directores. Grupos folclóricos existem que apenas aceitam actuar mediante o pagamento de avultados caches e outros há que foram constituídos para actuar preferencialmente para o turismo. Não admira, pois, que tais grupos se proponham representar uma área suficientemente abrangente para poderem dispor de um reportório mais vasto e diversificado, misturando costumes tão díspares da mesma região, com especial predilecção para o Minho em virtude da vivacidade do folclore e colorido dos seus trajes.

Noutra escala, muitos grupos folclóricos disputam entre si a origem geográfica de uma determinada dança, de um traje ou simplesmente de uma cantiga. A quantidade de grupos folclóricos que por vezes enxameiam uma determinada região impede que os mesmos consigam apresentar um reportório diferenciado ao mesmo tempo que se assiste à cobiça de uma peça cuja utilização pode conferir maior notoriedade a quem a apresenta. Mais ainda, para melhor vender a sua mercadoria, alguns grupos folclóricos não hesitam em adulterá-la, introduzindo-se um pouco de fantasia que a torne mais apreciada por parte do público. Inventam-se coreografias, alteram-se os ritmos das danças, modifica-se o talhe dos fatos e colocam-se adereços para os tornar mais vistosos. E, se ainda assim não é suficiente, qual receita infalível introduz-se uma dose de erotismo na própria dança.

Colocando de parte a falácia com que geralmente se enganam os incautos, o folclore virou claramente uma mercadoria, explorando os seus comerciantes da generosidade com que milhares de pessoas a ele se dedicam no convencimento de que estão a defender as suas raízes culturais. Uma mercadoria que, ao invés de outros produtos tradicionais como os que se relacionam com a agricultura e a gastronomia, não beneficia sequer da “Denominação de Origem Protegida”, vulgo DOP. Ao contrário destes, não é possível impedir que uma determinada dança ou um traje seja apropriada por uma entidade de uma região diferente que a vai colocar à venda através das suas actuações e dos suportes magnéticos que produz para comercialização, bem assim as características que caracterizam o produto. Por outras palavras e a título de exemplo, não é de momento possível certificar o traje de lavradeira do Alto Minho, estabelecendo as regras para o seu uso quanto à região de origem e às suas características, dando origem às mais estapafúrdicas mas sempre rentáveis representações.

Em jeito de conclusão, se o folclore serve para que ensaiadores, directores e tocadores aufiram remuneração e ainda determinados grupos exijam avultados pagamentos a fim de actuarem, recusando a prática usual do estabelecimento de permutas, então que o folclore seja efectivamente tratado como uma mercadoria que já o é na prática e, a actuação de todos os componentes passe a ser devidamente remunerada. O trabalho deve ser reconhecido e valorizado e, em circunstância alguma, se deve aceitar qualquer forma de exploração!

(*) Jornalista, Licenciado em História


 

Textos de Carlos Gomes - Index>>>

Outros Textos e Opiniões >>>

Pub

 


Se não encontrou nesta página o que procurava, pesquise em todo o Portal do Folclore Português
 

Pub

 


Acompanhe, em primeira mão as actualizações do Portal do Folclore Português:

FOLCLORE DE PORTUGAL - O Portal do Folclore e da Cultura Popular Portuguesa não se responsabiliza pelo conteúdo dos sítios registados
© Copyrigth 2000/2010  - Todos os direitos de cópia reservados - Webmaster