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"Temos obrigação de salvar tudo aquilo que ainda é susceptível de ser salvo, para que os nossos netos, embora vivendo num Portugal diferente do nosso, se conservem tão Portugueses como nós e capazes de manter as suas raízes culturais mergulhadas na herança social que o passado nos legou."  (Jorge Dias)
 
 
 
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Os desafios do Regionalismo no século XXI
 

 

Carlos Gomes(*)

O regionalismo minhoto e, de uma forma genérica, todas as “casas regionais” existentes em Lisboa, carecem de renovação – de pessoas, de métodos e sobretudo de ideias – que implique uma nova forma de orientação, mais consentânea com os tempos que correm e com as transformações que estão a verificar-se na sociedade portuguesa. Tal renovação passa pela assunção por parte dos elementos mais jovens e cultos dos destinos das associações em substituição de uma geração que insiste em se manter refém de hábitos ultrapassados e do próprio exercício directivo. Pese embora os seus constantes lamentos pela falta de quem queira tomar a seu cargo a tarefa de dirigir, são eles quem geralmente dificulta a renovação, não concedendo espaço e apenas preferindo a subserviência dos mais jovens.

Mas, a renovação não se efectua descaracterizando-se as associações regionalistas, alienando os seus objectivos ou entregando os seus destinos a elementos que não possuem a menor ligação com a respectiva região, pese embora a sua generosidade e amizade demonstrada.

Os fluxos migratórios internos têm vindo a alterar-se. As vias de comunicação aproximam Lisboa em relação ao interior. As gentes que um dia vieram viver e trabalhar para Lisboa transferiram-se para a periferia em virtude da terciarização ou seja, do predomínio do comércio e serviços nas áreas centrais da cidade. A oferta cultural diversifica-se. As migrações internas do início e meados do século vinte deram origem a novas gerações já nascidas na cidade que adquiriram novos hábitos, muitos dos quais com formação académica superior, com novos interesses e preocupações. E, essa realidade reflecte-se inevitavelmente na vida das casas regionais: após o declínio das associações de âmbito provincial e do último surto de casas concelhias verificado na década de oitenta do século passado, eis que também estas iniciam a marcha descendente.

As casas regionais não podem continuar a ser meras colectividades de cultura e recreio com a actividade dirigida a um público restrito. Elas necessitam de se transformar em entidades prestadoras de serviço de interesse público, na representação regional, um tanto à maneira das “casas regionais” que existem na capital francesa constituídas como sociedades representativas das diversas regiões. Por outro lado, elas devem abrir-se às novas gerações de descendentes, como vinho novo em casco antigo.

Um dos aspectos reveladores da incapacidade que a esmagadora maioria das “casas regionais” traduz-se na sua incapacidade de adaptação e relutância demonstrada perante as novas tecnologias. Apesar do elevado número de associações regionalistas existentes, é escasso o número daquelas que utilizam eficazmente este meio de comunicação. E, contudo, o Portal do Folclore inclui um sítio especialmente dedicado ao regionalismo, em Portugal e no mundo, assumindo-se simultaneamente como o Portal do Regionalismo Português.

A generalidade das “casas regionais” continua a trabalhar da mesma forma como sempre o fizeram, quase nos mesmos moldes em que vêm actuando desde que, no início do século XX, foram constituídas as primeiras associações. Em muitos casos, a sua actividade cinge-se à realização do almoço anual, ao funcionamento de um bar por vezes concessionado em descarada concorrência com a actividade hoteleira que é submetida a tributação para as finanças, à realização de um “piquenique” e por vezes de provas desportivas. São escassas as associações regionalistas que possuem agrupamento folclórico ou de música tradicional. A realização de exposições, debates, organização de estudos, actividade cultural ainda não entraram verdadeiramente nos seus hábitos.

Os descendentes daqueles que um dia foram forçados a abandonar os campos para trabalharem na cidade, os jovens que já nasceram no meio urbano e beneficiaram de outra formação, constituem um potencial humano que pode assegurar a continuidade das associações regionalistas, conferindo-lhes novas perspectivas. Porém, se tal não vier a suceder, como aliás se está a verificar, o regionalismo em Lisboa tenderá a extinguir-se muito rapidamente e existem alguns casos que são testemunho de tal realidade, sendo o exemplo mais recente a dissolução da Casa de Ourém.

(*) Jornalista, Licenciado em História


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