|
O regionalismo minhoto e, de uma forma genérica, todas as “casas
regionais” existentes em Lisboa, carecem de renovação – de pessoas,
de métodos e sobretudo de ideias – que implique uma nova forma de
orientação, mais consentânea com os tempos que correm e com as
transformações que estão a verificar-se na sociedade portuguesa. Tal
renovação passa pela assunção por parte dos elementos mais jovens e
cultos dos destinos das associações em substituição de uma geração que
insiste em se manter refém de hábitos ultrapassados e do próprio
exercício directivo. Pese embora os seus constantes lamentos pela falta
de quem queira tomar a seu cargo a tarefa de dirigir, são eles quem
geralmente dificulta a renovação, não concedendo espaço e apenas
preferindo a subserviência dos mais jovens.
Mas, a renovação não se efectua descaracterizando-se as associações
regionalistas, alienando os seus objectivos ou entregando os seus
destinos a elementos que não possuem a menor ligação com a respectiva
região, pese embora a sua generosidade e amizade demonstrada.
Os fluxos migratórios internos têm vindo a alterar-se. As vias de
comunicação aproximam Lisboa em relação ao interior. As gentes que um
dia vieram viver e trabalhar para Lisboa transferiram-se para a
periferia em virtude da terciarização ou seja, do predomínio do
comércio e serviços nas áreas centrais da cidade. A oferta cultural
diversifica-se. As migrações internas do início e meados do século vinte
deram origem a novas gerações já nascidas na cidade que adquiriram novos
hábitos, muitos dos quais com formação académica superior, com novos
interesses e preocupações. E, essa realidade reflecte-se inevitavelmente
na vida das casas regionais: após o declínio das associações de âmbito
provincial e do último surto de casas concelhias verificado na década de
oitenta do século passado, eis que também estas iniciam a marcha
descendente.
As casas regionais não podem continuar a ser meras colectividades de
cultura e recreio com a actividade dirigida a um público restrito. Elas
necessitam de se transformar em entidades prestadoras de serviço de
interesse público, na representação regional, um tanto à maneira das “casas
regionais” que existem na capital francesa constituídas como
sociedades representativas das diversas regiões. Por outro lado, elas
devem abrir-se às novas gerações de descendentes, como vinho novo em
casco antigo.
Um dos aspectos reveladores da incapacidade que a esmagadora maioria das
“casas regionais” traduz-se na sua incapacidade de adaptação e
relutância demonstrada perante as novas tecnologias. Apesar do elevado
número de associações regionalistas existentes, é escasso o número
daquelas que utilizam eficazmente este meio de comunicação. E, contudo,
o Portal do Folclore inclui um sítio especialmente dedicado ao
regionalismo, em Portugal e no mundo, assumindo-se simultaneamente como
o Portal do Regionalismo Português.
A generalidade das “casas regionais” continua a trabalhar da
mesma forma como sempre o fizeram, quase nos mesmos moldes em que vêm
actuando desde que, no início do século XX, foram constituídas as
primeiras associações. Em muitos casos, a sua actividade cinge-se à
realização do almoço anual, ao funcionamento de um bar por vezes
concessionado em descarada concorrência com a actividade hoteleira que é
submetida a tributação para as finanças, à realização de um “piquenique”
e por vezes de provas desportivas. São escassas as associações
regionalistas que possuem agrupamento folclórico ou de música
tradicional. A realização de exposições, debates, organização de
estudos, actividade cultural ainda não entraram verdadeiramente nos seus
hábitos.
Os descendentes daqueles que um dia foram forçados a abandonar os campos
para trabalharem na cidade, os jovens que já nasceram no meio urbano e
beneficiaram de outra formação, constituem um potencial humano que pode
assegurar a continuidade das associações regionalistas, conferindo-lhes
novas perspectivas. Porém, se tal não vier a suceder, como aliás se está
a verificar, o regionalismo em Lisboa tenderá a extinguir-se muito
rapidamente e existem alguns casos que são testemunho de tal realidade,
sendo o exemplo mais recente a dissolução da Casa de Ourém. |