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Desde os finais do século dezanove, as
margens dos rios Tejo e Sado viram chegar sucessivas levas de pescadores
oriundos da Vieira de Leiria, procurando sazonalmente nas suas águas o
alimento que o mar revoltoso da sua terra lhes não permitia a ousadia de
nele entrar durante o inverno. Começaram por viver nas suas próprias
bateiras. Mas, aos poucos foram fixando-se e aí foram erguendo as
primeiras habitações abarracadas, assentes em estacas e cobertas de
palha ou caniços. E assim foram surgindo pequenas povoas de pescadores
avieiros nomeadamente em Vila Franca de Xira, Alpiarça, Alpiarça,
Azambuja, Salvaterra de Magos e Alcácer do Sal.
Nalgumas localidades, verificou-se a
preocupação de preservar o património da cultura avieira, conservando as
suas construções, tradições gastronómicas e, na medida do possível, os
modos de vida dos seus habitantes. A salvaguarda das aldeias avieiras
contribuiu, inclusive, para a valorização turística das respectivas
regiões como sucede em Alcácer do Sal onde, junto à Comporta, existe na
Carrasqueira o maior cais palafítico da Península Ibérica. Noutras,
porém, optaram pela sua adulteração e até destruição a pretexto da
requalificação de zonas ribeirinhas em áreas urbanas como sucedeu em
Vila Franca de Xira. Na maior parte dos casos, o abandono constitui a
principal ameaça à sua sobrevivência.
Sem pretender-se descaracterizar o que
subsiste de uma cultura que tende a desaparecer, a preservação das
aldeias avieiras pode passar pela requalificação dos espaços envolventes
e a implementação de percursos turísticos e passeios fluviais, incluindo
a pesca desportiva. Importa melhorar a sinalização e os acessos, alguns
dos quais são actualmente impraticáveis como sucede com a praia do
Patacão, em Alpiarça. Sem exclusão dos seus moradores, estas aldeias
deveriam constituir-se como núcleos museológicos dotados de centros de
interpretação ambiental e cultural, dando a conhecer aos visitantes o
meio ambiente e a realidade social e cultural que os mesmos representam.
E, finalmente, porque uma boa mesa é sempre indispensável a uma boa
política regionalista, deveria privilegiar-se o roteiro gastronómico,
promovendo-se a cozinha tradicional avieira, desde as enguias ao sável e
à fataça na telha, iguarias únicas que teria seguramente elevado número
de apreciadores e contribuiria para a preservação da cultura avieira.
O desenvolvimento do turismo não constitui
necessariamente uma ameaça ao património cultural. Antes pelo contrário,
pode e deve ajudar a sua valorização e preservação, ocupando o turismo
cultural e ambiental um lugar cada vez mais de destaque. Trata-se de um
sector económico em franco crescimento e que pode contribuir para
salvaguardar o nosso património cultural e artístico, os usos e
costumes, ao mesmo tempo que cria riqueza e emprego, melhorando a
qualidade de vida das populações e a qualificação urbanística e
ambiental. As aldeias avieiras são parte integrante do património
cultural do povo português e, como tal, devem ser preservadas! |