|
Desde sempre o Homem acreditou na possibilidade dos mortos intercederem
na acção criadora dos deuses e no próprio ciclo da natureza,
contribuindo inclusivamente para o renascimento dos vegetais e das
culturas que os demónios e maus espíritos do inverno fizeram
desaparecer. Esta crença está na origem de uma infinidade de práticas
relacionadas com o culto dos mortos que regra geral se iniciam em
Novembro e prolongam-se até à Serração-da-Velha, atravessando as
cerimónias solsticiais ou "saturnais" e os
festejos carnavalescos.
Naturalmente, os ritos variam consoante as celebrações em causa mas
conservam entre si uma finalidade comum que é o de assegurar que o ciclo
da vida e da morte não se interrompa, possibilitando por conseguinte que
ao inverno suceda impreterivelmente a primavera. De acordo com as
investigações feitas no domínio da arqueologia e da antropologia,
acredita-se que as práticas do culto dos mortos tiveram o seu começo na
fase de transição da pedra lascada para a pedra polida, sendo disso
testemunho os inúmeros monumentos funerários como os dolméns ou antas,
inscrições votivas e outros achados. O folclore trouxe até nós inúmeros
vestígios desse modo de pensar e dos cultos praticados pelos nossos
ancestrais, devendo por esse modo constituir uma importante fonte de
estudo.
Pão por Deus ! - pedem as crianças na região saloia, percorrendo as
casas em alegre peditório. A ladaínha varia contudo de uma região para
outra. Por exemplo, para os lados de Braga é costume dizer-se do
seguinte modo: "Bolinhos, bolinhós, / Para mim e para vós / E para quem
está debaixo da cruz / Truz truz". Na região de Ourém, o rapazio vai
pelos casais e suplica: "Ti Maria: dai-me um bolinho em louvor de todos
os santinhos !". E, se a dona da casa é pessoa dada à brincadeira, ao
assomar à soleira da porta responde prontamente: "Dou sim ! com uma
tranca no focinho ..."
Por esta ocasião, as pessoas cumprem o ritual da visita aos cemitérios e
cuidam das sepulturas dos seus entes queridos. Mas, também em casa é
costume em muitas localidades, após a ceia, deixar até ao dia seguinte a
mesa composta de iguarias para que os defuntos possam banquetear-se. Em
Barqueiros, no concelho de Mesão Frio, na noite de Todos-os-Santos
coloca-se uma mesa com castanhas para os familiares falecidos, as quais
ninguém tocará porque ficam "babadas dos defuntos". Da mesma forma que o
azeite que alumia os defuntos jamais alumiará os vivos. Entre alguns
povos do leste europeu conserva-se ainda a tradição de organizar o
festim no próprio cemitério a fim de que todos em conjunto - mortos e
vivos - possam confraternizar !
A partir desta época do ano, as noites das aldeias são povoadas por
criaturas extraordinárias que surgem nas encruzilhadas e amedrontam os
notívagos. Uivam os lobos nas penedias enquanto as bruxas se reúnem
debaixo das pontes. A prudência aconselha que ao gado se prendam
pequenas saquinhas de amuletos que o resguardem do "mau olhado". O serão
é passado à lareira ouvindo histórias que nos embalam num mundo de
sonhos e fantasia que nos alimenta a imaginação. E, quando finalmente é
chegada a hora de dormir, faz-se o sinal-da-cruz para que o demónio não
nos apoquente e a manhã do dia seguinte volte a sorrir radiante a
anunciar uma vida nova. |