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(Continuação...)
Mas também a
música,
mais ou menos ritmada, com os seus acordes simples ou mais elaborados e
alternados, produzida por instrumentos onde geralmente predomina a
percussão. E, a acompanhá-la, o canto e a
dança, por vezes infantis e de
uma grande candura, outras porém a denunciar a perda da inocência. A
paisagem impõe um cante melancólico na planície alentejana
enquanto na ridente província do Minho o cantar é vivo e, por vezes, até
estridente, espirrando a alegria e o colorido intenso das veigas
verdejantes.
Deslumbra e encanta o
toque melodioso da flauta pastoril. Mas, nas regiões mais a norte onde
subsistem venhas usanças que constituem reminiscências das culturas das
tribos célticas e galaicas, esta acompanha o bombo, o tambor e a
gaita-de-foles que os grupos de zé-pereiras reproduzem nas
arruadas com a sua cadência marcial. Aqui, mistura-se o lado bucólico do
pastoreio na solidão da montanha com o espírito guerreiro dos povos
castrejos. Qual intrusa, a concertina tem vindo nos últimos tempos a
misturar-se neste grupo, retirando-lhe o seu verdadeiro carácter.
Mas não nos
detenhamos no nosso folclore e partamos de novo à descoberta por esse
mundo fora para observarmos o folclore africano e verificarmos como
ainda é jovem e impulsivo. E, na Ásia, surpreendermo-nos com o seu
requinte e maturidade, verdadeiramente reveladora de civilizações
milenares. E, no Brasil, onde a civilização portuguesa atinge o seu
maior esplendor e o folclore revela a máxima exuberância e variedade,
reunindo os mais diversos povos e culturas numa nação que constitui uma
imensa aguarela cuja grandeza é o orgulho de Portugal.
Apesar de se tratar
de uma nação secular, com perto de um milhar de anos de existência, por
vezes lamuriosa e vestida de tons sóbrios, os portugueses são ainda um
povo alegre, permanentemente rejuvenescido pela força anímica que lhe é
transmitida pelas jovens nações que originou. Ele exulta com o som da
concertina e desce ao terreiro quando rufam os bombos, os adufes e
pandeiros. O que em nada perturba a espiritualidade do cante
melodioso dos corais polifónicos que fazem o esplendor da imensa
catedral que é o Alentejo. Mais ainda, os portugueses projectam-se
também nos povos com os quais se cruzaram ao longo de sucessivas
gerações, misturando com ele a sua própria cultura e o folclore. |