|
(Continuação...)
E a todos foi grato verificar que, a par das contribuições mais singelas
sobre um ou outro facto local ou regional, surgiram naquela assembleia
teses de conjunto ou de carácter genérico e doutrinário, como as de
metafísica, do folclore e da ética dos provérbios populares, tratados
pelos reverendos Drs. Bacelar e Oliveira e Craveiro da Silva, da
Faculdade Pontifícia de Filosofia, de Braga.
Não faltaram outros elementos universitários e académicos, participantes
do Brasil, Espanha e México, os temas mais variados. Mas desejo aqui
congratular-me, sobretudo, com o apoio e interesse manifestados ao
Congresso, não só por corpos administrativos, como as Câmaras Municipais
de Braga -a autora da iniciativa e sua grande realizadora, Viana do
Castelo, Santo Tirso e Porto, e algumas juntas de província, mas também
por organizações como o Secretariado Nacional da Informação e Cultura
Popular, a Mocidade Portuguesa, a Fundação Nacional para a Alegria no
Trabalho, etc.
O Governo da Nação, o Governo de Salazar, dispensou ao Congresso o apoio
mais expressivo, sendo notáveis os discursos proferidos no mesmo pelos
ilustres Ministro das Corporações e Subsecretário de Estado da Educação
Nacional.
Verificou-se, assim, este facto altamente consolador: é que de sectores
os mais variados da vida nacional, de todos os planos hierárquicos, dos
domínios directamente ligados ao assunto como de outros, do Governo ao
próprio povo - como o de Braga e como o que participou nos festivais
folclóricos então realizados, houve geral concordância no reconhecimento
do vasto e profundo significado da bela iniciativa da Câmara de Braga, e
especialmente do seu extraordinário presidente.
Como ó oportuna e confortante tal verificação, precisamente quando nesta
Assembleia se está discutindo o Plano de Formação Social e Corporativa,
marcando-se o desejo de, abrindo os braços a todos os progressos reais e
fecundos, conservar as melhores e mais sãs tradições nacionais!
O Congresso emitiu numerosos votos, como em matéria de ensino,
investigação, propaganda, museus, protecção, etc., de assuntos
etnográficos e folclóricos. Sublinharei apenas, neste instante, os que
dizem respeito às actividades ultramarinas nesse domínio e à recusa ao
fado do título, tão correntemente usado, de canção nacional por
excelência.
O estudo da etnografia e folclore das populações ultramarinas mereceu ao
Congresso uma atenção especial, salientando-se a necessidade dessa
matéria nos centros de estudos sociais e políticos e nos novos
institutos de investigação científica de Luanda e Lourenço Marques,
entre as ciências humanas ou sociais.
Quanto ao fado, proclamou-se o inconveniente nacional e folclórico da
sua difusão excessiva, quer pela sua proveniência, quer pelo pessimismo
e desanimo que traduz, em contradição com as fontes e as manifestações
mais autênticas e construtivas da inspiração popular. O fado lembra as
guitarras plangentes de Alcácer, não um brado de vitória ou de fé.
Não pretendo negar a beleza de alguns fados, das toadas mais
melancólicas, de versos profundamente tristes. Mas não se chame canção
nacional por excelência a uma canção folcloricamente tão discutível e
tão distinta, em tudo, das belas, joviais e empolgantes canções de que é
felizmente tão rico. O autêntico folclore nacional.
Vi um dia, num festival folclórico, no Porto, centenas de visitantes
estrangeiros, como um só homem, perante uma exibição de ranchos de
Viana, erguerem-se a aplaudir e a gritar: «Viva Portugal»! Em vez do
fado depressivo, como não hão-de ser estimulantes e gratas para nós,
Portugueses, essas manifestações da nossa música popular que tom assim o
dom de arrebatar os próprios estrangeiros?
|