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Sempre que emigra, o minhoto leva consigo a concertina que o ajuda a
manter viva a sua alma alegre e jovial. Mesmo nos momentos mais penosos
como as que ocorreram desde a segunda metade do século dezanove, que os
levava a aventurarem-se clandestinamente nos porões dos navios que os
levaram ao Brasil para aí começarem uma vida nova, por vezes na miragem
de um rápido enriquecimento, era ainda a concertina que afagava as
tristezas de uma existência difícil e lhes redobrava as energias com
seus acordes vivos que logo os predispunham para dançar o vira e a
chula, a gota e o picadinho. E essa alegria contagiante do minhoto
depressa envolvia outros portugueses que partilhavam a mesma sorte de
emigrante e assim, à volta de uma concertina, todos se sentiam como
fazendo parte da mesma família que é, afinal de contas, o verdadeiro
significado do conceito de nação.
A concertina é um instrumento popular que teve a sua origem na Europa
por volta de 1830 e faz parte dos membrafones ou seja, dos instrumentos
musicais que produzem o seu som graças à actuação de uma membrana. Estou
convencido de que não existe método nem escola para se proceder à sua
aprendizagem, facto que tem sido responsável pela sua gradual
substituição pelo acordeão nos últimos tempos, sobretudo entre os grupos
folclóricos portugueses. Não obstante e apesar da sua leve aparência, o
acordeão produz uma sonoridade completamente distinta da concertina,
pois tratam-se na realidade de dois instrumentos distintos. No entanto,
existem acordeões que possuem como alternância o som da concertina,
bastando para o efeito accionar um botão específico. Com efeito, em
virtude da evidente falta de tocadores de concertina, muitos grupos
folclóricos optam pela substituição deste instrumento pelo acordeão, o
que se na realidade não satisfaz constitui por vezes a única forma de
viabilizar a existência desses agrupamentos.
A ameaça de desaparecimento da concertina coloca um problema sério
principalmente ao folclore, sobretudo da região de
Entre-o-Douro-e-Minho. É que, sem o toque da concertina desaparece toda
a sonoridade que caracteriza a música desta região e tudo se altera,
como se o minhoto perdesse a sua pronúncia característica ou a música
tradicional passasse a ser interpretada por meio de modernos
instrumentos electrónicos. É que, por melhor executada que fosse, o vira
jamais seria o mesmo!
A preservação do uso e conhecimento da concertina coloca um problema
sério aos grupos folclóricos e, em geral a todos aqueles que desejam
manter vivas as nossas tradições populares. Importa saber como poderá
manter-se a continuidade da sua utilização sabendo-se que o seu ensino
não é ministrado. Naturalmente, a sua aprendizagem pela sensibilidade
auditiva passa pela prática do uso nos grupos folclóricos, embora
sabendo-se que a formação de um excelente tocador é demorada e coloca
algumas dificuldades na própria actuação dos grupos. Mas, entre uma
solução atamancada que vai adulterar a sonoridade original da música e a
possibilidade de dar continuidade ao emprego da concertina, importa
escolher a melhor opção. E essa terá de ser necessariamente a que melhor
aproveita ao folclore português. |