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(Continuação...)
Outra das actividades pela qual ficaram
particularmente conhecidos consistiu na venda dos palitos fosfóricos,
então feitos de enxofre que tinham de ser mergulhados num pequeno frasco
de ácido sulfúrico. Dada a sua utilização demorada e ainda pouco
prática, os palitos fosfóricos ficaram então conhecidos por “espera-galego”,
criando-se desse modo uma imagem que passou a conotar de forma algo
injusta os próprios galegos, sugerindo tratarem-se de mandriões. Porém,
a colónia galega não se ocupava apenas das profissões mais labregas, por
assim dizer humildes, mas destacava-se em todas as áreas sociais, muitas
das quais de grande relevo, tendo nomeadamente eleito vereadores para a
edilidade lisboeta como sucedeu com o escritor Carlos Selvagem. É,
aliás, no início do século que surge na zona da Graça, em Lisboa, por
iniciativa de um empresário galego, um bairro para os trabalhadores da
sua fábrica que desperta ainda grande curiosidade devido à simbologia
ali sempre presente – o Bairro Estrela d’Ouro.
Todos os anos, por ocasião do dia que é
consagrado a Santo Amaro e que ocorre em meados do mês de Janeiro, uma
autêntica multidão acorria à Romaria de Santo Amaro para festejar o seu
padroeiro. Rezam as crónicas da época que, em redor da capela, era um
ver de gaitas-de-foles e pandeiretas e um nunca mais acabar de xotas
e muiñeiras, carballesas e foliadas. Contudo, esta
festa foi perdendo o seu fulgor e deixou de realizar-se. A própria
capela veio a encontrar-se ao abandono, chegando uma das suas
dependências a ser utilizada como armazém de carvão.
Entretanto, em 1908, os galegos que vivem em
Lisboa constituíram a sua própria associação – a Xuventude de Galicia
(Centro Galego de Lisboa). E, em meados do século passado, passaram a
celebrar o dia 25 de Julho em homenagem a S. Tiago, Padroeiro da Galiza.
E, para o festejar, escolhiam então uma velha capelinha actualmente em
ruína, situada no Alto da Boa Viagem, junto ao farol do Esteiro, em
Caxias, e para lá acorriam juntamente com os minhotos, o mesmo é dizer
os “galegos d’aquém Minho”. Mas, à semelhança do que antes
sucedera com a Romaria de Santo Amaro, também esta acabou votada ao
esquecimento e deixou de ser celebrada. Também, há pouco mais de meio
século, criaram o grupo “Os Anaquinos da Terra” que procura manter e
divulgar as tradições folclóricas das gentes da Galiza.
Em virtude da sua identidade cultural e
sobretudo linguística, a comunidade galega encontra-se presentemente
integrada na sociedade portuguesa a tal ponto que não se faz notar pela
forma de estar ou de se exprimir. Pese embora os acontecimentos
históricos terem determinado a separação política de um povo que possui
raízes comuns, portugueses e galegos continuam irmanados do mesmo
sentimento que os une e do supremo ideal de virem ainda um dia a
construir uma só nação. Como disse Ramón Cabanillas, no seu poema “Saúdo
aos escolares Lusitanos”:
Irmáns no sentimento saudoso!
Mocedade da pátria portuguesa!
Este homilde fogar galego é voso.
É voso este casal,
onde vive a soñar, orante, acesa,
a alma da Galiza e Portugal!
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