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A
desertificação do interior constitui uma das realidades com que
frequentemente nos insurgimos em resultado de políticas que consideramos
erradas do ponto de vista demográfico. Na realidade, o que pretendemos
criticar é o despovoamento do interior porquanto a
desertificação diz mais directamente respeito aos processos errados
de cultivo e de gestão dos solos que levam à sua infertilidade e
consequente avanço do deserto que abraça as regiões mais equatoriais e
que, presentemente, ameaçam a própria Península Ibérica.
Porém, em meados do século XX, o Estado Novo seguiu uma política
denominada de “colonização interna”, levada a cabo precisamente
por um organismo denominado de Junta de Colonização Interna criado em
1936. No entanto, esta política foi iniciada pela Ditadura Militar, em
1926, nomeadamente com a constituição da Colónia Agrícola dos Milagres,
em Leiria. Esta visou a fixação à terra e o povoamento de regiões com
menos densidade populacional, atribuindo incentivos destinados a
promover a pequena agricultura familiar e simultaneamente modernizando
os processos agrícolas e integrando extractos sociais como colonos em
África mal sucedidos, ferroviários, antigos militares e agentes da
autoridade, em geral sempre famílias mais carenciadas. Esta política
constitui uma das facetas da reforma agrária encetada pelo Estado Novo
que inclusive deixou marcas na arquitectura do meio rural.
Um
pouco por todo o país, sobretudo em localidades do interior,
foram-lhes atribuídos terrenos baldios e construídas habitações onde
foram implantadas “colónias agrícolas”. Ponte de Lima, Paredes de
Coura, Arcos de Valdevez, Monção, Montalegre, Leiria, Montijo e
Cantanhede foram apenas algumas das localidades onde essa política foi
implementada. Nem sempre os colonos se adaptaram e revelaram capacidade
de iniciativa mas casos houve de sucesso e, recentemente, lograram ficar
na posse das terras que trabalharam durante décadas. E vieram a
integrar-se na vida local e criar as suas raízes.
Ainda actualmente é possível identificar as referidas “colónias
agrícolas”, pelos seus traços característicos como a geminação das
habitações, a semelhança existente entre si e a sua organização que por
vezes contemplava a igreja, a escola primária e o posto médico.
Por exemplo, o projecto inicial da Colónia Agrícola da Boalhosa, em
Paredes de Coura, compreendia quinze habitações geminadas com capacidade
para trinta famílias, escola primária, residência do professor e forno
comunitário. Por dificuldade de financiamento, a igreja e o posto médico
inicialmente previsto nunca chegaram a ser construídos.
A
“colonização interna” constitui um dos numerosos exemplos de
movimentos demográficos que contrariam a visão daqueles que encaram o
folclore como algo de estático, partindo do pressuposto errado que as
populações não se deslocam geograficamente e, por conseguinte, os usos e
costumes apenas se podem referir a uma determinada região em concreto.
Por outras palavras e tomando o traje como exemplo, associam-no a uma
região em vez de o identificarem com as gentes da respectiva região,
deduzindo que estas ali permanecem sedentárias sem revelarem qualquer
atitude migratória. Um conceito, aliás, que presta um mau serviço ao
folclore! |