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»» O SABER NÃO OCUPA LUGAR >> Textos, Opiniões e Comentários Pub


Os cata-ventos e a meteorologia popular

 

Carlos Gomes(*)

Durante muito tempo, os cata-ventos constituíram um motivo de ornamentação dos pináculos das igrejas e catedrais onde o galo, símbolo de vigilância e mensageiro da verdade divina, ocupava o lugar cimeiro que uma bula papal do século X determinara. Ou ainda, substituindo as flâmulas e bandeiras senhoriais, exibiam nas torres dos castelos e palácios as armas do nobre que ali residia.

Com o decorrer dos séculos, tal privilégio estendendo-se á burguesia, em particular aos artesãos como forma de assinalar os ofícios a que se dedicavam. Digamos que, mais do que uma maneira de obter a informação do estado do tempo, tratava-se de uma espécie de anúncio publicitário.

Para o agricultor, o cata-vento é de grande utilidade uma vez que a sua actividade depende essencialmente dos elementos da natureza. O mesmo se passa com o moleiro e o pescador. Não admira, pois, que sobre cada moinho exista invariavelmente um cata-vento a indicar a direcção para a qual o moleiro deve rodar o capelo a fim de aproveitar a energia do vento. Mas, o sistema do cata-vento é também frequentemente aplicado a poços de água cujo bombeamento aproveita a acção do vento nas pás.

O camponês observa atentamente o que o rodeia e, com base numa observação sistemática, procura daí retirar os ensinamentos que o permitam prever os fenómenos meteorológicos de forma a melhor regular a sua actividade. Trata-se, na realidade, de um método empírico que está na base da própria ciência experimental, assente na constatação direcção dos fenómenos e rejeitando qualquer forma de intuição. E, através da poesia e dos axiomas, memoriza e transmite os ensinamentos recolhidos, conseguindo com essa simplicidade o extraordinário feito de fazer chegar a sucessivas gerações para que elas se possam enriquecer com o seu conhecimento.

Mas, pese embora ter sido inicialmente um privilégio do clero e da nobreza, eram os artesãos que os criavam numa multiplicidade de formas, tendo-se tornado um elemento do património popular que deveria merecer um maior cuidado na sua preservação.

Com o advento do estudo da meteorologia e a difusão de boletins meteorológicos através da comunicação social, os cata-ventos foram perdendo a sua função básica que consistia na orientação das práticas agrícolas para se tornar um elemento essencialmente decorativo. Não obstante, o estudo da meteorologia aproveita o cata-vento e outros instrumentos da criação popular para determinar a velocidade e orientação dos ventos, tendo apenas para tal lhes acrescentado os mecanismos electrónicos que permitem efectuar o registo gráfico. Aliás, qualquer estação meteorológica não dispensa equipamentos básicos como aqueles a que nos referimos, pese embora o extraordinário avanço que a utilização do registo da imagem por satélite representou para o estudo da meteorologia.

Um pouco por todo o país, os cata-ventos continuam a indicar a orientação dos ventos ao mesmo tempo que, absorvidos no frenesi da vida diária, passamos indiferentes sem notar na sua presença altaneira. Mas já vai sendo tempo de prestarmos uma maior atenção a tais peças de arte popular que geralmente incluem motivos decorativos de interesse artístico e etnográfico.
 

(*) Jornalista, Licenciado em História


 

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