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A Casa de Ourém, em
Lisboa, encontra-se em fase de dissolução. O remanescente está a ser
inventariado a fim de se incorporar no património da Câmara Municipal de
Ourém. O seu espólio encontra-se destinado à Biblioteca Municipal, ao
Arquivo Histórico e ao Museu de Ourém, sendo algumas peças encaminhadas
para instituições de beneficência e outras associações oureenses.
Nas últimas décadas,
vinha a Casa de Ourém debatendo com uma dificuldade crescente de
mobilização dos seus associados e da comunidade oureense radicada na
região de Lisboa. A contribuir para essa situação, contribuiu
naturalmente a distância cada vez mais encurtada em relação a Ourém,
graças às novas vias de comunicação, incluindo o transporte ferroviário.
Por outro lado, o grande número de pequenas e médias empresas que têm
sido criadas naquele concelho têm contribuído para a fixação das suas
gentes, reduzindo notoriamente a necessidade de migração para Lisboa.
Aqueles que partem, continuam a manter a região de Paris, em França,
como o seu principal destino.
Não é o primeiro caso
de dissolução de uma associação regionalista. Recordamo-nos ainda do
encerramento da Casa do Concelho de Ovar, em meados dos anos sessenta,
apesar de situada numa zona de Lisboa onde ainda existe forte
implantação das gentes ovarinas ou seja, próximo do
típico bairro da Madragoa. Ou
ainda, nos anos oitenta, a Casa da Comarca de Oliveira de Azeméis,
instalada no bairro de Campo de Ourique. Desde então, várias ficaram
pelo caminho ou simplesmente não vingaram à nascença. E, entre as que
permanecem, algumas apenas se limitam a existir, não realizando qualquer
actividade visível.
Não raro, confunde-se
os objectivos com a associação em si ou seja, a finalidade com o
instrumento criado para atingir esse desiderato. E, pese embora terem
deixado de se manter as causas objectivas que presidiram à sua
constituição, mormente a existência de uma comunidade que constitui a
sua base social de apoio, insiste-se por vezes em manter legalmente uma
entidade que não pode mais cumprir a missão para que foi criada,
acabando por perverter a sua orientação e entregar os seus destinos a
pessoas estranhas à sua região. Existem casos em que, começando por
verificar que não conseguem assegurar a sua continuidade nas mãos de
naturais, descendentes e outras pessoas ligadas à respectiva região,
tratam de alterar as normas estatutárias para permitir que outros o
façam por eles, eliminando as diferenças que são características nas
casas regionais. Em tais situações, não promovendo embora a sua
dissolução, essas associações já deixaram na prática de existir em
função dos fins para que foram criadas.
Apesar de a
dissolução representar uma perda para o associativismo, o exemplo da
Casa de Ourém merece ser valorizado porquanto dignificou o concelho de
Ourém enquanto existiu e jamais permitiu que a sua designação viesse a
servir outros propósitos. E, não existindo oureenses em Lisboa em número
expressivo que queiram participar na sua actividade, a sua missão foi
dada por cumprida e o prolongamento da sua da sua existência deixou de
fazer o menor sentido.
A Casa de Ourém foi
fundada em 1953 e começou por funcionar na rua das Cruzes, à Sé. As suas
actuais instalações situavam-se na rua da Palma, junto ao chafariz do
Desterro. A ideia da sua criação surgiu num almoço de oureenses que, em
17 de Fevereiro de 1935, juntou pela primeira vez na capital os naturais
daquele concelho. Ainda no mesmo ano, organizaram uma excursão a Vila
Nova de Ourém, conforme então se designava a actual cidade de Ourém.
Decorridos mais de setenta anos, a organização de uma excursão a Ourém
não se justificaria. Isto apesar de serem constantes as excursões que se
realizam a Fátima, freguesia do concelho de Ourém mundialmente
conhecida. A distância que a separa de Lisboa é actualmente vencida em
duas horas por estrada e em apenas uma hora de comboio, até ao apeadeiro
de Caxarias.
Pese
embora a dissolução tenha sido a solução escolhida para uma situação que
não deixava alternativa credível, a decisão dos oureenses deve
constituir um exemplo porquanto este caminho é preferível a deixar que o
nome da sua terra venha a servir outros propósitos que não presidiram à
sua constituição, entregando em mãos alheias o estandarte com as armas
que constam do brasão do seu concelho. Fica-nos a memória grata das
poucas oportunidades de convívio que usufruímos em virtude do
envolvimento que tivemos em projectos semelhantes. |