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O uso de máscaras que ocorre
durante os festejos de Carnaval tem na
sua origem um carácter religioso relacionado ainda com o culto dos
mortos, pretendendo-se com a sua antropomorfização invocar os seus espíritos
e a sua intercessão no ciclo ininterrupto de vida e morte da própria
natureza e dos vegetais, razão pela qual muitos mascarados se vestem de
branco, afivelam máscaras que representam esqueletos ou simplesmente a
própria morte. Acendiam-se fogueiras e queimavam-se bonecos, costume
aliás que de igual modo deve estar na origem da serração da velha, a
qual também nos aparece sob a forma de pulhas e ainda na versão mais
cristianizada da queima do Judas. É neste contexto ainda que se inserem
as tradicionais máscaras transmontanas e as festas dos rapazes que ali
têm lugar. |
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Com o decorrer dos tempos, estas festividades também adquiriram um carácter
de crítica social, visando com ele corrigir os desvios verificados no
ano velho de modo ao renascimento da natureza também se operar no indivíduo
e no seio da própria sociedade, o que explica as pulhas e os
"testamentos" que são lidos na serração da velha e na
queima do judas, bem assim como as máscaras que procuram representar
alguém sem ser a própria morte. Aliás, na tragédia grega a máscara
que era usada significava precisamente a "pessoa" que se
representava.
Resultante da combinação entre a cultura europeia predominantemente
portuguesa e as culturas africanas e indígenas, o Carnaval adquiriu no
Brasil alguns aspectos diferenciados a que não não são alheias as
condições climáticas e as diferentes influências que se verificam
nas diversas regiões como sucede com o Carnaval da Baía em relação
ao de São Paulo e do Rio de Janeiro. Por conseguinte, a transplantação
do Carnaval brasileiro para Portugal afigura-se a todos os títulos
desajustada como ridícula, apenas justificável por motivos comerciais.
Aliás, da mesma forma que sucede em relação ao haloween, costume que
se insere no culto dos mortos e foi levado para o continente americano
pelos colonos europeus e que agora regressa sob a forma de mercadoria.
Perdida que foi a sacralidade primitiva, os festejos chegam até nós
pela tradição, despojados de espiritualidade, apenas envoltos em
fantasia e divertimento, mas contendo ainda em si os elementos que o
determinaram. Com efeito, o Carnaval ou "festa da carne"
antecede a Quaresma, para os muçulmanos o Ramadão, período de abstinência
que se destina à purificação do corpo e da alma e que visa
preparar-nos para o renascimento da vida e da natureza, o ano que começa
com a chegada da Primavera.
E é então que que tem lugar a Serração
da Velha e o garotio percorre os caminhos das aldeias com zambumbas e
zaquelitraques, tréculas, sarroncas e tudo quanto produza barulho e que
se destina a afugentar os demónios do Inverno. Práticas estas, aliás,
que também ocorrem consoante os casos no Carnaval e na passagem de
ano, na noite de Natal ou durante os Reis. Para trás ficou a longa
noite do Inverno repleta de visões e fantasmas aterrorizantes com abóboras
iluminadas nas encruzilhadas dos caminhos e reuniões de bruxas sob as
pontes e nos cabeços dos montes, os peditórios de "pão por
Deus" e as visitas aos cemitérios, a queima do madeiro e o cantar
das almas. (...) |