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Antes do aparecimento
do comboio e, mais recentemente, das modernas rodovias, o barco foi
durante bastante tempo um meio privilegiado de transporte de pessoas e
mercadorias. Ao longo de séculos e à falta das enormes pontes suspensas,
a ligação entre as duas margens do rio Tejo apenas era feita por via
fluvial. As técnicas de engenharia ainda não haviam tornado possível
unir as duas margens numa área tão extensa como a que se verifica junto
à sua foz. O mesmo se verificava com o transporte de mercadorias
realizado a bordo das fragatas, faluas e varinos que sulcavam as suas
águas formigando numa constante azáfama.
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Pese embora a
evolução de outros meios de transporte e do incremento das vias de
comunicação, algumas cidades europeias persistem na utilização da via
fluvial como uma forma de evitar o congestionamento do trânsito à
superfície, agravando ainda mais a circulação rodoviária e prejudicando
gravemente a actividade turística que tão proveitosos rendimentos
proporcionam. É o que se verifica em Paris onde compridas e estreitas
embarcações carregadas de materiais para a construção percorrem o canal
de Saint Martin cujo percurso subterrâneo liga Austerlitz à Bastilha.
Ainda, o centro da Europa é atravessado por com complexo sistema de
canais navegáveis, regulado por eclusas, que permitem percorrer milhares
de quilómetros através de vários países.
Outrora, o vinho
generoso que é produzido na região demarcada do Douro era transportado
nos barcos rabelos que, de uma forma bastante arriscada, ousavam
desafiar a impetuosa corrente que os arrastava quase até à foz, em Vila
Nova de Gaia, por um percurso sinuoso e acidentado, por entre cachoeiras
desde Barca de Alva até Melres. No regresso, levando consigo cascos
vazios ou com aguardente e ainda outras mercadorias, para levar de
vencida a força da corrente sempre que o vento não era de feição, os
rabelos eram rebocados a partir das margens por potentes juntas de bois
que, auxiliados pela força humana, os conduzia pelos caminhos de
sirga. Eram estes assim designados em alusão ao cabo de sisal que
servia para rebocar os barcos.
Particularmente
concebido para navegar no rio Douro, esta é a única embarcação que
outrora o conseguia fazer devido à ausência de quilha e ainda à
utilização da espadela que permitia efectuar as operações de
manobra adequadas.
Subsistem ainda
restos dos denominados “caminhos de sirga”. Encontram-se nas
margens do rio Douro e também no rio Tejo, a jusante da barragem do
Fratel. Neste rio, outrora navegável até Toledo, os caminhos de sirga
foram de grande utilidade ao tempo em que os barcos chegavam ao Porto do
Tejo, em Vila Velha de Ródão.
Da mesma forma que os
rabelos deixaram de desafiar os perigos que espreitam no rio Douro,
prostrando-se, ufanos, junto à Ribeira, no Porto, também os caminhos
de sirga não servem mais a navegação nos rios portugueses. Porém,
continuam à espera que alguém os preserve e classifique como património
cultural a ser protegido. Eles representam o esforço árduo de sucessivas
gerações de homens e mulheres que, ao longo de vários séculos, rasgaram
a terra duriense para, a partir das suas entranhas, cultivar a vinha que
permitiu criar o mais famoso néctar do mundo – o vinho generoso do Douro
que ficou mundialmente conhecido por “vinho do Porto”! |