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Caminhos de sirga no Douro
são um hino ao labor das gentes durienses

Carlos Gomes(*)

Antes do aparecimento do comboio e, mais recentemente, das modernas rodovias, o barco foi durante bastante tempo um meio privilegiado de transporte de pessoas e mercadorias. Ao longo de séculos e à falta das enormes pontes suspensas, a ligação entre as duas margens do rio Tejo apenas era feita por via fluvial. As técnicas de engenharia ainda não haviam tornado possível unir as duas margens numa área tão extensa como a que se verifica junto à sua foz. O mesmo se verificava com o transporte de mercadorias realizado a bordo das fragatas, faluas e varinos que sulcavam as suas águas formigando numa constante azáfama.

Pese embora a evolução de outros meios de transporte e do incremento das vias de comunicação, algumas cidades europeias persistem na utilização da via fluvial como uma forma de evitar o congestionamento do trânsito à superfície, agravando ainda mais a circulação rodoviária e prejudicando gravemente a actividade turística que tão proveitosos rendimentos proporcionam. É o que se verifica em Paris onde compridas e estreitas embarcações carregadas de materiais para a construção percorrem o canal de Saint Martin cujo percurso subterrâneo liga Austerlitz à Bastilha. Ainda, o centro da Europa é atravessado por com complexo sistema de canais navegáveis, regulado por eclusas, que permitem percorrer milhares de quilómetros através de vários países.

Outrora, o vinho generoso que é produzido na região demarcada do Douro era transportado nos barcos rabelos que, de uma forma bastante arriscada, ousavam desafiar a impetuosa corrente que os arrastava quase até à foz, em Vila Nova de Gaia, por um percurso sinuoso e acidentado, por entre cachoeiras desde Barca de Alva até Melres. No regresso, levando consigo cascos vazios ou com aguardente e ainda outras mercadorias, para levar de vencida a força da corrente sempre que o vento não era de feição, os rabelos eram rebocados a partir das margens por potentes juntas de bois que, auxiliados pela força humana, os conduzia pelos caminhos de sirga. Eram estes assim designados em alusão ao cabo de sisal que servia para rebocar os barcos.

Particularmente concebido para navegar no rio Douro, esta é a única embarcação que outrora o conseguia fazer devido à ausência de quilha e ainda à utilização da espadela que permitia efectuar as operações de manobra adequadas.

Subsistem ainda restos dos denominados “caminhos de sirga”. Encontram-se nas margens do rio Douro e também no rio Tejo, a jusante da barragem do Fratel. Neste rio, outrora navegável até Toledo, os caminhos de sirga foram de grande utilidade ao tempo em que os barcos chegavam ao Porto do Tejo, em Vila Velha de Ródão.

Da mesma forma que os rabelos deixaram de desafiar os perigos que espreitam no rio Douro, prostrando-se, ufanos, junto à Ribeira, no Porto, também os caminhos de sirga não servem mais a navegação nos rios portugueses. Porém, continuam à espera que alguém os preserve e classifique como património cultural a ser protegido. Eles representam o esforço árduo de sucessivas gerações de homens e mulheres que, ao longo de vários séculos, rasgaram a terra duriense para, a partir das suas entranhas, cultivar a vinha que permitiu criar o mais famoso néctar do mundo – o vinho generoso do Douro que ficou mundialmente conhecido por “vinho do Porto”!

(*) Jornalista, Licenciado em História

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Barco rabelo à sirga (puxado a homens)
Barco rabelo à sirga (puxado a bois)

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