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O campino do Ribatejo tal como actualmente o
conhecemos, altivo na sua montada, com o seu pampilho, apresenta-se
invariavelmente com o seu colete encarnado, faixa vermelha à cintura,
calça azul e meias brancas até ao joelho, jaqueta e sapato de prateleira
com esporas. Ao invés de outros trabalhadores rurais da mesma região,
usa barrete verde com orla a vermelho, sugerindo as cores da actual
bandeira nacional. |
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O barrete é, desde tempos muito recuados
usual em diversas regiões do nosso país, quer no meio rural como ainda
entre as comunidades de pescadores. No
Minho, apesar da indústria de
chapelaria que se desenvolveu em Braga nos meados do século XIX, a qual
levou à difusão em toda aquela do característico chapéu braguês, o
barrete continuava a ser utilizado nas tarefas diárias da lavoura.
Originariamente, todos os barretes eram
pretos ou cinzento-escuro, independentemente do grupo social ou a região
do país em que eram utilizados. Ainda hoje os podemos encontrar com
relativa facilidade entre os pescadores da Nazaré e da Póvoa do Varzim
ou até na região saloia. Porém, apesar de se pretender preservar aquilo
que foram os usos e costumes de uma determinada época, geralmente dos
finais do século XIX e começos do século XX, também o
traje tradicional
tem sido permeável às modas e a outros interesses que o levam a registar
modificações que, não raras as vezes chegam até nós como o que existe de
mais genuíno.
Seria extensa a lista de exemplos que
poderíamos enumerar para descrever as alterações que ao longo dos tempos
se tem registado no traje tradicional, para já não falarmos de outros
aspectos relacionados com o folclore como as coreografias, os
instrumentos utilizados e os próprios cantares. Bastará, apenas, referir
o tamanho das saias que outrora se usavam comparados com o que por vezes
é exibido actualmente, as formas estilizadas e os tecidos. Muitas dessas
alterações não estão apenas relacionadas com as influências exercidas
pela moda mas ainda com a sua utilização para fins de propaganda
turística e até política, como sucedeu em grande medida durante o
período do Estado Novo.
Sucede que, faz precisamente cem anos que
foi instaurado em Portugal o regime republicano. E, como é sabido, o
Ribatejo constituía uma das regiões de maior implantação política dos
republicanos da altura. De resto, foi um ribatejano de seu nome José
Relvas, quem hasteou a bandeira do novo regime nos Paços do Concelho, em
Lisboa. Na verdade, a bandeira hasteada pertencia a um pequeno grupo
político, o Centro Democrático Federal, pois a bandeira tal como a
conhecemos só viria a ser concebida e aprovada pela Assembleia Nacional
Constituinte no ano seguinte.
Inspirados pelo famoso quadro “A Liberdade
guiando o Povo” de Eugène Delacroix, os republicanos criaram uma figura
alegórica para representar a República, um tanto à semelhança do que
fizeram os franceses ao conceberem a sua Marianne. O modelo então
escolhido foi uma jovem alentejana de Arraiolos, de seu nome Irene
Pulga. E, tal como os franceses fizeram com a Mariana, colocaram-lhe
sobre a cabeça um barrete frígio.
O barrete frígio é assim designado por ter
sido primitivamente usado pelos habitantes da Frígia que constituía uma
região da Ásia Menor, sensivelmente onde actualmente se encontra a
Turquia. Os republicanos franceses adoptaram-no, sob a cor vermelha,
como símbolo de liberdade. Aliás, da mesma forma que, nos finais do
século XIX, foram os caçadores alpinos franceses os primeiros a adoptar
a boina basca, alterando-lhe a cor para azul-escuro, tendo passado a
constituir um acessório dos uniformes de inúmeras forças militares sob
as mais diversas cores. De forma algo idêntica, também os republicanos
portugueses viram certamente no barrete do campino ribatejano uma
espécie de barrete frígio, genuinamente português, podendo ser-lhe
introduzidas as cores da República.
Com o decorrer do tempo e a divulgação do
folclore, mormente ao tempo do Estado Novo, a ideia do barrete verde
viria a enraizar-se nos costumes ribatejanos e a tornar-se uma peça
considerada genuína do traje do campino.
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