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A concepção de casa
tradicional do ponto de vista arquitectónico assenta na reunião das
linhas estéticas do edifício que variam consoante a região e os hábitos
culturais onde se insere. De igual modo, a engenharia que é empregue na
concretização do projecto arquitectónico corresponde às exigências
naturais e culturais que presidem à sua construção, nomeadamente as
características dos materiais e as suas necessidades de utilização. E,
falamos de projecto arquitectónico uma vez que, por mais elementar que
seja o seu planeamento, sempre que alguém se propõe a edificar algo, tem
sempre presente uma ideia, ainda que rudimentar, daquilo que vai
construir – o projecto!
Tal como sucede com o
vestuário, também a casa tem como função primordial o refúgio, a
protecção e o bem-estar do indivíduo, afastado dos perigos que o rodeiam
no exterior e onde possa encontrar algum conforto. Assim sendo, o Homem
ergue a sua habitação tendo em linha de conta os materiais disponíveis,
as características da paisagem, as ameaças que enfrenta e as suas
próprias necessidades. Não admira, pois, consoante o meio onde se
encontra, os homens tenham concebido uma grande diversidade de tipos de
habitação, desde os iglos das zonas polares às casas em palafitas,
incrustadas no rochedo das falésias ou sobre ilhas artificiais.
As condições
climáticas determinam o estilo arquitectónico, mais soalheiras no
litoral e abrigada nas zonas húmidas e frias, com terraços do tipo árabe
no Algarve ou com o telhado em agulha para não reter a neve como sucede
na Dinamarca. Em função da orientação predominante dos ventos, a forma e
altura das chaminés. Ou ainda, para desfrutar da paisagem, as varandas
alpendradas no piso superior mais a norte ou as casas térreas,
indiferentes à monotonia dos campos mais a sul.
A casa era
originariamente construída com os materiais existentes no local pois os
meios de comunicação e transporte não permitiam ainda que fosse de outra
forma. Assim sendo, encontramos a lousa nos telhados das aldeias
transmontanas e o colmo nos antigos casebres do
Minho, as casas de xisto
na serra da Lousã ou as palafitas nas aldeias avieiras.
A sua concretização
exigia o emprego de natural engenho na colocação dos materiais, na
concepção das estruturas, o conhecimento da resistência e durabilidade
dos materiais e da forma de aproveitamento para o fim em vista.
Consoante as necessidades que determinam a dimensão e ordenamento dos
espaços, a sua volumetria e funcionalidade, assim se teria de conceber
pilares e traves que permitissem a sua construção. Sobretudo no Minho, a
casa tradicional do lavrador possuía os estábulos do gado – ali
designados por cortes – no piso térreo, constituindo
simultaneamente um sistema de aquecimento centralizado de toda a
habitação.
O concelho de Ourém
situa-se numa zona de transição entre o
Ribatejo, a
Estremadura e a
Beira Litoral, recebendo naturalmente de todas elas as suas influências.
Do ponto de vista geográfico, a área a sul daquele concelho encontra-se
situada no maciço calcário estremenho identificado pela serra d’Aire.
Aqui, as habitações tradicionais são feitas de pedra, das quais as casas
que foram dos videntes de Fátima e ainda o
Museu de Aljustrel constituem
exemplares dignos de registo. Porém, na área a norte do mesmo concelho,
predominam os arenitos, razão pela qual as casas eram feitas de taipa ou
com tijolo de adobe, por vezes caiadas com a cal proveniente das
imediações, mormente do concelho de Alvaiázere.
O tijolo de adobe
antecedeu o tijolo de barro a que os romanos designavam por tijolo burro
em virtude da sua cor – asnus era a designação do animal em
relação ao qual associaram a cor burrus – e o seu emprego na
construção remonta às civilizações da Mesopotâmia e do Antigo Egipto,
onde aliás, ainda se podem ver nos zigurates e nas mastabas, tal é a sua
durabilidade e resistência, apesar da sua aparente fragilidade. Os
tijolos de adobe eram tradicionalmente feitos com barro e palha, dentro
de uma forma de madeira.
Porém, o aparecimento
de novos materiais e técnicas de construção, o desenvolvimento dos
transportes e das vias de comunicação e ainda a deslocação das
populações tem determinado as alterações na paisagem em relação à
construção, nem sempre produzindo os efeitos mais desejáveis. Em regiões
do país onde a emigração se registou de uma forma mais acentuada são
visíveis os reflexos urbanísticos e arquitectónicos, destacando-se na
paisagem edificações por vezes desenquadradas do meio onde se encontram,
não apenas devido às cores que exibem como ainda em relação aos seus
elementos arquitectónicos. Contudo, temos de encarar a sociedade como
algo de dinâmico, havendo apenas que preservar os nossos valores
culturais, mormente a arquitectura tradicional como uma das marcas da
nossa própria identidade. |