|
A
cultura tradicional portuguesa está repleta de
lendas de mouras
encantadas que aparecem junto de fontes e poços, alusões a nascentes no
cancioneiro popular, cantigas e adivinhas. Não raras as vezes, os locais
de onde a água brota límpida são transformados em locais de culto
invariavelmente associados a milagres e aparições de Nossa Senhora, como
sucede no Calvário, em Vila Praia de Âncora.
A
toponímia atesta a importância e a sacralidade desses locais com
designações como Fonte Santa, Águas Santas, Fonte de Santo António ou
Fonte de S. Gualter. Outras, porém, fazem alusão às mouras que povoam o
imaginário popular, quais divindades pagãs que habitavam nas suas águas
e lhes atribuíam propriedades mágicas. Segundo a crença antiga, elas
apareciam geralmente na noite de S. João, penteando as suas tranças com
pentes de oiro fino, elementos que nos levam a acreditar tratar-se de
reminiscências de antigos ritos solares ligados ao solstício do Verão.
Já na mitologia grega eram as fontes, os ribeiros e as nascentes de água
habitadas por ninfas aquáticas denominadas por náiades.
Desde sempre, a água assumiu uma importância primordial na vida do
Homem. Mesmo quando sentiram a necessidade de recorrer a elevações de
maior inacessibilidade para melhor se protegerem, os povos castrejos
fixaram-se sempre junto a importantes pontos de abastecimento de água.
E, construíram poços e cisternas para as armazenarem, dando início a uma
engenharia que o haveria de levar mais tarde a erguer os imponentes
castelos medievais. As cisternas são geralmente abastecidas a partir de
galerias escavadas horizontalmente, vulgo minas de água, as quais
conduzem o precioso líquido para um reservatório que é necessário
construir uma vez que, sendo a água transportada pelo efeito da
gravidade, o abastecimento é constante.
As
características geológicas de determinadas áreas leva a que as águas
atinjam maiores profundidades no subsolo, como sucedem nos maciços
calcários do centro do país onde se formam verdadeiros rios subterrâneos
e as fracturas existentes nos revelam magníficas grutas naturais que
oferecem um espectáculo de rara beleza. É precisamente a infiltração das
águas de superfície através das zonas de descontinuidade das formações
calcárias que permitem a formação das estalagmites e estalactites.
No
seu contacto com as formações rochosas e outros sedimentos e ainda em
função da geotermia ou seja, do nível térmico adquirido de acordo com a
profundidade, as águas subterrâneas adquirem características
físico-químicas que lhes proporcionam inclusive propriedades curativas.
Ou ainda, como sucede nos Açores, estas podem ser adquiridas em consequência da actividade magmática que se regista na crosta terrestre.
Em qualquer dos casos, a constatação de tais atributos leva
frequentemente o povo a atribuir poderes milagrosos a estas águas
minerais, o que também ajuda a explicar alguns aspectos da religiosidade
popular.
Ficou noutros tempos célebre, em Lisboa, entre outras nascentes de água,
a Fonte da Água das Ratas, em Alfama, sempre palco de desacatos que
levaram ao seu encerramento. Entre Tomar e Ourém, milhares de pessoas
acorrem anualmente à nascente do Agroal para aí se banharem, na
convicção de que a mesma tem poderes curativos para a psoríase. E, um
pouco por todo o país, surgiram as fontes termais e estão identificadas
centenas de nascentes com águas aconselhadas para os mais diversos
males.
Em
regiões onde a água escasseia, assiste-se a um especial cuidado na sua
utilização incluindo para fins agrícolas. E, não raras as vezes, as
fontes registam uma profunda gratidão ao benemérito que teve a bondade
de a oferecer ao povo para seu uso comunitário. E, o respeito que lhe
deve é de tal ordem que, diversas localidades dos concelhos de Ourém e
Pombal têm vindo a recuperar antigas fontes para que possam servir aos
peregrinos que por ali se dirigem a Fátima.
A
água é considerada um símbolo da vida e da pureza. Ela é referida em
inúmeras passagens da Bíblia a começar pelo Génesis. O seu carácter
purificador está patente no ritual do baptismo através do qual se
anuncia uma vida nova. Da mesma forma que o poço está associado à ideia
de sabedoria e a água à sede do conhecimento. De resto, trata-se de um
elemento comum a todas as religiões e culturas.
As
mouras encantadas, porém, não surgiam somente junto dos poços e fontes.
Frequentemente, elas habitavam grutas e necrópoles, castros e mamoas,
consoante as características da região no que respeita a locais de
interesse histórico. Aparecem por vezes sob a forma de serpente e, na
Idade Média, transfiguraram-se em bruxas e “damas-de-pé-de-cabra”.
Pela mística de que se revestem, as bocas dos poços passaram a ser
frequentemente ornamentados com uma cruz sobre o arco de ferro, da mesma
forma que encima o espigueiro a proteger o cereal do qual se fará o pão. |